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Ritmo acelerado de exportação de carne faz Brasil tentar flexibilizar salvaguarda chinesa

Ritmo acelerado de exportação de carne faz Brasil tentar flexibilizar salvaguarda chinesa


Foto: Freepik

As exportações brasileiras de carne bovina mantêm ritmo acelerado ao longo de 2026. Como de costume, a China lidera com folga a lista dos principais importadores. No entanto, o ano apresenta diferenças relevantes em relação ao padrão habitual, especialmente diante da importante mudança no perfil importador chinês.

O país asiático passou a estabelecer cotas para seus principais fornecedores com o objetivo de proteger a pecuária de corte local, que, segundo alegações do governo chinês, não consegue competir com a carne bovina importada.

Conforme já abordado anteriormente, as cotas distribuídas beneficiaram Argentina, Uruguai e Nova Zelândia, que receberam fatias superiores ao volume histórico anual exportado para os chineses. Brasil e Austrália, por outro lado, receberam cotas inferiores ao volume normalmente exportado por esses países à China. Em outras palavras, a sinalização foi de um ritmo mais fraco de exportações para os dois principais fornecedores globais.

Os Estados Unidos também receberam sua cota, de 164 mil toneladas. Entretanto, havia um entrave importante: no ano passado, em meio à guerra comercial, a China não renovou as licenças de exportação de carne bovina de centenas de frigoríficos norte-americanos, situação que levou a uma forte retração dos embarques. Contudo, ao longo de maio, a visita do presidente norte-americano Donald Trump contribuiu para que os chineses renovassem essas licenças de exportação.

importação de carne bovina china
Foto: Reprodução

Até o momento, os Estados Unidos exportaram cerca de 700 toneladas de carne bovina para a China em 2026, volume bastante tímido para os padrões do país. Ainda assim, mesmo com a renovação das licenças, parece pouco provável que os norte-americanos avancem de maneira consistente sobre o mercado chinês, considerando o relevante quadro de restrição de oferta que afeta o país. Nesse contexto, a prioridade segue sendo o abastecimento do mercado doméstico.

Entre os países que receberam cotas de exportação para a China, apenas Brasil e Austrália acionaram os alertas do GACC, inicialmente sinalizando a utilização de metade da cota. A Austrália já recebeu o segundo alerta, indicando o preenchimento de 80% da cota de exportação, restando pouco mais de 40 mil toneladas disponíveis para embarque aos chineses.

No caso do Brasil, o segundo alerta deve ocorrer durante a primeira quinzena de junho. A partir desse momento, a tendência é de que a indústria limite de maneira importante a produção destinada ao mercado chinês, considerando que ainda há cargas em trânsito que devem levar a cota ao limite de 100%. Mesmo assim, parte do produto deverá ser submetida à tarifa adicional de 55%.

Pedidos de Brasil e Austrália

Diante desse cenário, as autoridades brasileiras e australianas aproveitaram a SIAL Shanghai, maior feira de alimentos do mundo, para tentar o abrandamento das medidas de salvaguarda. A intenção dos dois países é acessar parcelas das cotas de exportadores que, até o momento, apresentam ritmo mais lento de embarques, casos de Estados Unidos, Uruguai e Nova Zelândia.

principais destinos da carne brasileira
Foto: Reprodução

Ao longo da semana, a expectativa em torno de anúncios foi elevada, com diversas informações sobre reuniões entre autoridades. Entretanto, até o momento, não houve posicionamento concreto por parte do governo chinês. A percepção atual é de que os chineses deverão aguardar o esgotamento das cotas antes de se manifestarem sobre eventual flexibilização das medidas.

A alta dos preços da carne bovina no mercado doméstico chinês parece lógica em um ambiente de menor disponibilidade de produto. No entanto, o objetivo final da medida de salvaguarda é a recuperação do rebanho bovino local, algo que dificilmente ocorrerá sem melhora do retorno financeiro da atividade, o que depende diretamente da valorização dos preços pecuários.

Mais do que uma medida pontual de proteção comercial, a salvaguarda chinesa parece fazer parte de uma estratégia estrutural de fortalecimento da produção doméstica de proteínas.

Além disso, ao se observar o ambiente de produção de proteínas de origem animal, surge outro importante sinal de alerta: o excesso de oferta de carne suína. A baixa rentabilidade do setor suinícola, associada à elevada disponibilidade de produto, tem levado o governo chinês a adotar medidas de estímulo ao consumo e até mesmo anunciar a recomposição da reserva estatal de carne suína, em uma tentativa de enxugar o mercado doméstico.

A China responde por mais de 50% da produção global de carne suína. Nesse contexto, preservar as margens da atividade é fundamental para a segurança alimentar do país. A redução das importações de outras proteínas também contribui para direcionar a demanda à proteína suína, que atualmente apresenta preços mais competitivos.

Por fim, vale mencionar os planos quinquenais chineses, que estabelecem as bases da produção agropecuária do país. Entre os principais objetivos está o aumento da produção local e a redução gradual da dependência das importações para atender ao consumo interno. Como de costume, as questões relacionadas à segurança alimentar permanecem como prioridade estratégica para a China.

Para o Brasil, resta intensificar a busca pela diversificação de mercados, reduzindo gradualmente a dependência dos chineses e buscando maior pulverização das vendas, em movimento semelhante ao observado no setor de carne de frango. Nesse contexto, a abertura dos mercados do Japão e da Coreia do Sul será fundamental, assim como o avanço das exportações para a União Europeia, superando as barreiras relacionadas ao uso de antimicrobianos na produção pecuária nacional.

*Fernando Henrique Iglesias é coordenador do departamento de Análise de Safras & Mercado, com especialidade no setor de carnes (boi, frango e suíno)


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