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Alerta no pasto: El Niño desafia a pecuária de leite no Brasil

Alerta no pasto: El Niño desafia a pecuária de leite no Brasil


Foto: Gisele Rosso/Embrapa

O clima global se prepara para uma nova rodada de instabilidades com a confirmação da presença do El Niño pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA, na sigla em inglês). Para a pecuária de leite, o fenômeno traz um cenário complexo e heterogêneo: enquanto algumas regiões se preparam para enfrentar secas e estresse térmico, outras podem registrar aumento na oferta de forragem.

Apesar do alerta ligado para a safra 2026/27, o impacto no volume total produzido depende de múltiplos fatores geográficos e estruturais.

O tamanho do desafio: quão forte será o El Niño?

A intensidade do El Niño ganhou contornos mais nítidos no segundo semestre. Modelos climáticos indicam uma probabilidade de 63% de o evento atingir uma intensidade muito forte entre os meses de novembro e janeiro.

Este período é considerado crítico por coincidir diretamente com o início e o desenvolvimento da estação chuvosa nas principais regiões produtoras do Brasil. “Este timing é uma fase decisiva para o plantio e o potencial produtivo”, alerta Juliana Torres Santiago, analista de inteligência de mercado da StoneX, em relatório técnico.

Segundo ela, “um El Niño forte tende a aumentar a variabilidade climática, com excesso de chuvas em algumas áreas e seca em outras”.

O mosaico de impactos nas regiões brasileiras

Como a produção de leite está presente em 99% dos municípios do país, o impacto acaba sendo fragmentado. Segundo o levantamento da StoneX, os efeitos variam drasticamente de acordo com a geografia nacional:

  • Nordeste sob risco: A região, que vinha expandindo sua participação de mercado por meio de novas tecnologias, enfrenta o maior risco de estiagem. Estados como Bahia, Sergipe e Alagoas são os mais expostos à escassez de chuva. O período mais crítico deve se concentrar em fevereiro e março, comprometendo diretamente a oferta de pastagens.
  • Irregularidade no Centro-Sul: Em grandes polos como Minas Gerais e Goiás, a tônica será a oscilação. Alternando meses mais secos (novembro, dezembro e março) com momentos de recuperação, a principal preocupação reside no estresse térmico. O rebanho sofre com as altas temperaturas, o que prejudica o conforto dos animais e ameaça a produção de silagem de milho.
  • Excesso de água no Sul: Na contramão do país, o Sul e o Mercosul (Argentina e Uruguai) devem registrar volumes de chuva acima da média. Se por um lado isso favorece o crescimento do pasto, por outro exige atenção. “O volume elevado de chuvas pode gerar problemas de manejo, comprometer a sanidade do rebanho, dificultar a logística de captação e prejudicar o plantio de forragens suplementares”, pontua a analista no documento.

Por que o impacto não é linear?

Historicamente, o comportamento do volume total de leite produzido no Brasil não apresenta uma relação direta com o El Niño ou a La Niña. Isso ocorre porque os efeitos tendem a se contrabalançar entre as regiões — o ganho produtivo impulsionado pelas chuvas no Sul costuma equilibrar as perdas causadas pela seca no Nordeste.

Além disso, fatores estruturais têm demonstrado maior peso do que as variáveis climáticas isoladas. “Mudanças como a adoção crescente de tecnologia, a migração para sistemas de confinamento, variações de preço, dinâmicas de demanda e o cenário internacional exercem influência mais determinante sobre a produção”, destaca Juliana.

Panorama global: Oceania sob a mesma dinâmica

Grandes players mundiais do mercado de lácteos, como a Nova Zelândia e a Austrália, também enfrentam previsões de heterogeneidade por operarem sistemas baseados em pastagens. Enquanto a Austrália tende a enfrentar um padrão mais quente e seco, a Nova Zelândia divide-se entre um oeste úmido e um leste seco.

Ainda assim, os dados históricos mostram ausência de correlação linear exata entre o índice climático e a produtividade final das pastagens locais. Para a safra 2026/27, a projeção de uma leve retração produtiva na Oceania decorre muito mais de uma base de comparação excepcionalmente alta em 2025/26 do que de danos diretos do fenômeno.

Perspectivas para os próximos meses

O ano de 2026 segue registrando uma tendência de desaceleração produtiva no Brasil, reflexo direto das margens de rentabilidade observadas pelo produtor nos últimos anos.

O grande ponto de atenção se desloca para 2027. Caso as previsões de um El Niño intenso e persistente se sustentem ao longo do primeiro semestre, o equilíbrio entre oferta e demanda global poderá sofrer alterações mais severas, exercendo pressão de alta sobre os preços praticados no mercado de lácteos.

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