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Augusto Cury diz que juros do crédito rural são cruéis e defende mandato para ministros do STF

Augusto Cury diz que juros do crédito rural são cruéis e defende mandato para ministros do STF


O candidato à Presidência da República pelo Avante, Augusto Cury, foi o primeiro entrevistado da série de conversas com os candidatos ao Palácio do Planalto promovida pelo Canal Rural e pelo BDM. A entrevista foi realizada nesta segunda-feira (24) e conduzida por Antônio Petrin, com participação do comentarista do Canal Rural Miguel Daoud e da editora-chefe do BDM, Rosa Riscala.

A ordem das entrevistas foi definida por sorteio realizado em 27 de julho, na presença das assessorias das campanhas. A série reúne seis candidatos mais bem posicionados nas principais pesquisas de opinião.

Produtor rural, Cury falou sobre sua experiência no campo e apresentou propostas para o agronegócio. Entre os principais temas abordados estiveram o Plano Safra, o endividamento dos produtores, os juros do crédito rural, o seguro agrícola, a segurança jurídica e a necessidade de ampliar os investimentos na produção.

Durante a entrevista, o candidato classificou como “insanidade” e “crueldade” os juros elevados e defendeu a entrada de recursos estrangeiros para ampliar a oferta de crédito ao setor. Também falou sobre a necessidade de aumentar a produção de grãos, verticalizar a cadeia produtiva e formar mão de obra especializada para o campo.

Confira a entrevista na íntegra:

Canal Rural/BDM: O senhor também é produtor rural. Em quais atividades atua?

Augusto Cury: Desde os 10 anos de idade, cresci e respirei o ar do campo. Meu pai comprou uma propriedade agrícola. Era citricultor e também produtor de grãos. Sou filho de escola pública. Meu pai e minha mãe moravam em oito em um quarto só. Éramos muito pobres, mas nos reinventamos. Fiz escola pública no ensino fundamental, no ensino médio e, na universidade, me tornei médico.

Depois, com o crescimento da minha profissão e me tornando, com muita humildade, o escritor mais lido do Brasil neste século e o psiquiatra mais lido do mundo, comprei uma série de propriedades.

Hoje plantamos mogno africano, temos 400 hectares de seringueira, eucalipto, grãos, citricultura e cacau do Cerrado. Além disso, também criamos gado. É apaixonante a pecuária.

Canal Rural/BDM: Qual é a sua avaliação sobre o Plano Safra e que atenção o senhor daria ao programa caso fosse eleito?

Augusto Cury: Algumas estatísticas falam até em R$ 622 bilhões do Plano Safra, mas que nunca chegam, e quase R$ 100 bilhões para a agricultura familiar.

A agricultura é uma atividade que demanda tantos recursos que tudo que se faz é insuficiente. Por isso, na minha opinião, nós teríamos que trazer pelo menos US$ 200 bilhões de fora, de fundos de Abu Dhabi, da Arábia Saudita e de outros fundos. Esses recursos teriam que ser protegidos ou segurados em dólar e nós também deveríamos ter a garantia do governo, com segurança jurídica, para que possamos emprestar a juros de 4% a 6%.

O Plano Safra, ainda que seja importante, é completamente insuficiente para os 350 milhões de toneladas de grãos que produzimos. Um dos meus projetos, um dos meus sonhos, é dobrar a produção de alimentos para 700 milhões de toneladas nos próximos dez anos.

Canal Rural/BDM: Como o senhor pretende enfrentar o endividamento dos produtores rurais?

Augusto Cury: É quase inacreditável que aqueles que sentam na cadeira de presidente nunca plantaram uma horta e querem definir o futuro da agricultura do Brasil, nunca colocaram também seu dinheiro em risco e querem definir o futuro do comércio no Brasil. É impressionante.

Nós precisamos abraçar o produtor rural de maneira completa e real. Não é possível pagar um custeio alto. A atividade agrícola, às vezes, não dá 5% ou 7%. E pagar um custeio médio de 20% não fecha a conta nunca.

Os produtores rurais estão falindo no Brasil. O endividamento é altíssimo. O agricultor precisa lidar com o clima, que não controla; com a taxa de câmbio, que não controla; com os preços internacionais e com a alta dos insumos.

Acontece uma guerra, por exemplo, e isso explode o preço do petróleo e afeta também o valor do diesel. Essas variáveis fazem com que o estado de alerta e a emoção do agricultor estejam constantemente pressionados.

Por isso, temos que nos preocupar muito não apenas com a saúde mental, mas também com a saúde financeira do agricultor.

Se deixarmos os juros baseados na taxa Selic, de 14%, mais um spread de 3%, 4%, 5% ou 6%, chegando a 20% para o custeio normal, não é possível ter uma agricultura com tranquilidade, já que há tantas variáveis que podem mudar dramaticamente.

Também temos que ter seguro. Apenas 3% a 4% da safra brasileira tem seguro. O governo tem que facilitar o seguro, porque, se o produtor tem seguro, inclusive os bancos podem emprestar a juros melhores.

Os que estão no Banco Central também nunca plantaram uma horta. Pegam uma taxa tão alta como a Selic, cortam o ímpeto do consumidor para sobrar mais produtos e diminuir a inflação, mas usam a mesma guilhotina para cortar a cabeça do produtor. É uma insanidade, é uma crueldade.

Por isso, quem leva vantagem nessas taxas altas de juros são aqueles que têm muito dinheiro. O Brasil é um país viciado em juros e não viciado em produção.

Nós teremos que fazer uma revolução no campo. Temos que ter um governo responsável fiscalmente, gastar muito menos do que arrecada para que essas taxas caiam o mais rápido possível e para que possamos ter juros civilizados, para que o agricultor brasileiro tenha condições de se financiar.

Eu não uso o Plano Safra, mas sei que muita gente usa e nem sempre tem acesso adequado a esses juros, porque existe uma burocracia absurda.

Nós precisamos verticalizar a produção brasileira. Eu repaginaria todas as embaixadas do Brasil para vender o Brasil como supermercado do mundo, e não apenas como celeiro ou fazenda do mundo.

Hoje produzimos mais ou menos 350 milhões de toneladas de grãos e alimentamos cerca de 800 milhões a 1 bilhão de pessoas. Precisaríamos dobrar essa produção para 700 milhões de toneladas nos próximos dez anos e sentar de igual para igual no tabuleiro das nações com a China e também com os Estados Unidos, porque aí seremos extremamente relevantes.

Nós produzimos cerca de 135 milhões a 140 milhões de toneladas de milho. A China produz o dobro e os Estados Unidos produzem o triplo. Temos que dobrar a produção de milho.

Deveríamos ter pelo menos 100 usinas de etanol de milho e converter as usinas de etanol de cana também em etanol de milho. Vamos transformar o milho em etanol.

Além disso, sobra o DDGS, que é um proteinado muito rico, quase 30% de proteína. Poderíamos ter clusters, um ecossistema nos mais diversos estados brasileiros, inclusive no Nordeste, com bovinocultura, avicultura, suinocultura e frigoríficos para vender a proteína, e não apenas o grão in natura.

Também devemos incentivar a produção de bioenergia a partir da soja, porque, quando houver um preço muito baixo, será possível utilizar a soja em grande quantidade para regular os preços.

Canal Rural/BDM: A taxa Selic está elevada por causa do desajuste fiscal? O senhor pretende fazer um ajuste fiscal? O que poderia ser cortado e o que deveria ser preservado?

Augusto Cury: Nós temos cerca de 50 mil profissionais comissionados. Teremos que enxugar esse número, talvez em 30%.

Segundo o Banco Mundial, se fizermos ajuste de custeio e da administração pública, podemos economizar, inclusive em certos programas sociais, com índice de eficiência. Podemos economizar de 2% a 7% do PIB.

Mas outra coisa muito cruel: sabe quanto o Brasil pagou no ano passado só para rolar a dívida federal? R$ 1,14 trilhão.

Conversei com vários economistas. É cruel. R$ 1,14 trilhão. Nós temos que ter responsabilidade fiscal para que essa taxa de juros caia.

Eu não consigo entender por que este país, que é irresponsável fiscalmente, tem que ter juros tão altos. A França também é irresponsável fiscalmente, os Estados Unidos estão acrescentando quase US$ 2 trilhões por ano e devem 122% do PIB, no mínimo. O México também está com uma descompensação fiscal intensa.

Por que o Brasil tem que ser campeão real de juros? Se nossa inflação está entre 4% e 5%, deveríamos ter juros entre 9% e 10%. Somos um país viciado em juros.

Nós temos que ter um país com juros muito mais civilizados e presidentes do Banco Central que sejam completamente livres, mas sensíveis à produção. Qualquer economista mediano, usando uma taxa de juros estratosférica, vai controlar a inflação, mas você corta o ímpeto do consumidor e também esmaga o produtor.

Falei hoje com Paulo Skaf, que eu gostaria de trazer também para o Ministério da Indústria. A situação da indústria está caótica. Às vezes, não dá 3%, 4% ou 5% de retorno, e o custeio está em 20%, 25%. Não fecha a conta.

Eu acho que tem que haver gente mais sensível, que olhe para a produção e não apenas para o controle da inflação. Talvez um duplo mandato do Banco Central.

O Banco Central tem que ser independente. Se não for independente, é o caos. Mas quem assume o Banco Central tem que ter experiência na produção também, porque não é possível alguém que nunca plantou uma horta definir juros que podem condenar a agricultura brasileira.

A cada 1% a mais na taxa Selic, a Raízen pagava mais de R$ 400 milhões de juros. A recuperação judicial não suportou. Muita gente não está suportando.

Vários produtores, às lágrimas, me disseram em um congresso em Rondonópolis: “Doutor Cury, a situação é tão grave. Nós somos altamente eficientes. Somos um grupo de grandes produtores, com dezenas de milhares de hectares. O custeio está em 20% e nossa lucratividade não dá 5% ou 7%. O que fazemos? Estamos quebrando em massa”. Absurdo.

Canal Rural/BDM: Como o senhor pretende enfrentar a insegurança jurídica e seus impactos sobre o agronegócio?

Augusto Cury: A segurança jurídica é fundamental.

Existe insegurança jurídica em relação à regularização fundiária rural e urbana. Há 30 milhões de residências no Brasil não escrituradas.

Se você não escritura, não tem senso de pertencimento, tanto na área rural quanto na urbana. E, se você não tem senso de pertencimento, não tem acesso ao crédito. Consequentemente, fica à margem da sociedade.

E sabe por que não há segurança jurídica? Falta vontade política, porque nunca amaram de fato o produtor rural. O produtor rural, que sustenta essa nação e é o orgulho dessa nação, muitas vezes é tratado como vilão.

O Brasil é um dos países mais responsáveis ambientalmente do mundo, tem uma matriz energética muito limpa e possui um Código Florestal altamente rigoroso.

Claro, se 2% dos agricultores cometem crimes, devem responder à Justiça, mas 98% são sérios e devem ter sua imagem preservada e divulgada de maneira adequada lá fora.

Por isso, as embaixadas brasileiras, que têm excelentes diplomatas e embaixadores, deveriam ser repaginadas para vender o Brasil como supermercado do mundo, como centro de biotecnologia e como centro de bioenergia.

Vamos atuar de maneira muito séria para a regularização fundiária, não apenas rural, mas também urbana. E temos que ter menos interferência.

O governo brasileiro precisa, se não ajudar, pelo menos não atrapalhar muito o agro. O agro vai sozinho. Se puder ajudar e contribuir, trazendo, quem sabe, US$ 200 bilhões segurados em dólar, com segurança jurídica e com o governo apoiando essa política, certamente haverá dinheiro para ser emprestado de maneira mais adequada, com juros muito mais civilizados.

Hoje você fica dependendo do dinheiro do governo, que gasta muito mais do que arrecada, e do dinheiro do Banco do Brasil e de outros bancos, que é completamente insuficiente para expandirmos nossa produção e dar segurança aos produtores rurais.

Canal Rural/BDM: O senhor falou sobre os problemas do campo. Como pretende enfrentá-los politicamente e estabelecer um plano para o Brasil?

Augusto Cury: O Congresso e o Executivo se autoalimentam dessa situação para poder permanecer no poder. Isso tem que acabar.

O Brasil está no divã. Na verdade, virou um manicômio tributário. Mas esse paciente tem jeito? O Brasil tem solução. O Brasil tem cura.

O Brasil precisa de reformas importantes. É quase inacreditável que os dois últimos presidentes, Lula e Bolsonaro, não tenham dito que ideias divergentes jamais deveriam servir como argumentos para construir inimigos a serem abatidos.

Esse país está polarizado, dividido. As famílias estão divididas e o campo está dividido porque não se pode discutir mais adequadamente as ideias.

Os problemas mais importantes não têm cor partidária. Temos, por exemplo, a questão da violência contra a mulher e a violência contra crianças. Tenho um projeto de lei, o Projeto de Lei Augusto Cury, que tramita no Congresso e prevê que cada criança nascida em solo brasileiro, de zero a 12 anos, tenha uma consulta com um médico e um psicólogo para prevenir os predadores sexuais.

Também temos 6,7 milhões de jovens que não trabalham nem estudam. Isso é muito grave.

É a era da desesperança. Os jovens estão sendo sequestrados pelo crime. Se você não dá esperança, as facções vão cooptá-los, porque o Estado não dá o mínimo de segurança.

Precisamos repaginar os currículos acadêmicos. Os professores não podem ser apenas cartesianos. Eles devem ser provocadores da arte de perguntar, desafiadores da arte de pensar e estimular os alunos a participar.

Quando um aluno se manifesta, seja um aluno com transtorno do espectro autista, dislexia ou sem neurodivergência, todos têm que aplaudir. Assim você cria uma emocionalidade para um aprendizado melhor e mais rápido.

Precisamos repaginar os currículos. Tem que haver gestão financeira, empreendedorismo e oratória. Cerca de 75% dos nossos jovens têm medo de falar em público, a chamada glossofobia.

O professor tem que resgatar sua autoridade e o ensino médio precisa ser completamente repaginado, pois apenas 20% a 21% dos jovens fazem ensino técnico.

Eles precisam sair do ensino médio com formação técnica em marketing digital, informática, gestão financeira, inteligência artificial, robótica, drones e outras áreas.

Canal Rural/BDM: Como o senhor pretende enfrentar a falta de mão de obra qualificada no campo?

Augusto Cury: Não há dúvida. Eu sou produtor rural e entendo a dor do produtor rural. Eu ouvi a dor durante mais de 30 anos e sei das dificuldades porque também sou produtor rural.

Nós vamos repaginar os currículos do ensino médio para ter uma mão de obra mais especializada.

Os proprietários de terra têm que formar sucessores, e não herdeiros. Herdeiros são torradores de herança. Sucessores pensam no médio e longo prazo e também precisam se equipar e se tecnificar.

Vou fazer um pacto nacional. Vou conversar com o STF e com o Parlamento e, como Executivo, vamos fazer um pacto para convidar os melhores especialistas para dirigir essa nação. Os melhores economistas e também governadores sem histórico de corrupção.

Não é Augusto Cury, escritor ou gestor. O time é muito mais importante que o ego.

Canal Rural/BDM: Por que o senhor decidiu disputar a Presidência da República?

Augusto Cury: Eu não dependo do poder. Não preciso do poder. Para mim, isso é uma dor. Estou me colocando como candidato sem precisar. Não preciso do dinheiro, não preciso do prestígio, porque tenho mais do que os políticos jamais sonharam em ter. Sou publicado em mais de 90 países.

Por que estou me colocando como candidato à Presidência? Porque o problema não é a ação dos maus e dos corruptos, é a omissão dos bons e daqueles que têm a contribuir.

Eu saí de cima do muro. Estou destruindo esse muro para construir pontes, pegando os tijolos para construir pontes. Eu chamaria Caiado para o governo. Brinquei com ele no debate ontem. Chamaria Zema, Ratinho Júnior, Eduardo Leite. Chamaria também Aldo Rebelo, que é meu amigo.

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