O discurso do presidente Lula na Assembleia Geral das Nações Unidas teve dois destinatários. O primeiro estava diante dele: chefes de Estado, diplomatas e representantes de quase duas centenas de países. O segundo acompanhava tudo do Brasil: o eleitor.
Lula falou sobre guerras, crise climática, desigualdade e interferência das grandes potências. Tentou se apresentar como uma liderança capaz de representar os países em desenvolvimento e questionar a atual ordem internacional.
Mas a frase mais forte do pronunciamento ultrapassou as paredes da Organização das Nações Unidas (ONU) e entrou diretamente na eleição brasileira: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
Uma ONU enfraquecida
Lula foi duro ao tratar da incapacidade das Nações Unidas de cumprir sua missão mais importante: preservar a paz.
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Segundo ele, a credibilidade da organização nunca esteve tão baixa. O Conselho de Segurança, que deveria impedir conflitos, encontra-se frequentemente paralisado pelos interesses das potências que possuem poder de veto. Essa crítica tem fundamento.
A ONU acompanha a multiplicação das guerras, mas demonstra pouca força para interrompê- las. As resoluções se acumulam enquanto populações inteiras perdem suas casas, suas famílias e seu futuro.
“A guerra é a falência total da política”, afirmou Lula. É uma frase que resume bem o momento. Quando a diplomacia desaparece e os governos recorrem às armas, a maior conta não fica para os líderes. Fica para a população civil.
Guerras sem vencedores
O presidente mencionou os conflitos no Irã e na Ucrânia e defendeu que a negociação volte a ocupar o lugar das armas.
No caso da Ucrânia, voltou a dizer que dificilmente haverá uma solução definitiva apenas no campo de batalha. É um ponto delicado. Defender a diplomacia é necessário, mas qualquer acordo precisa considerar a soberania do país invadido.
Lula também condenou duramente a atuação de Israel na Faixa de Gaza, classificando como genocídio a morte de mulheres e crianças palestinas. Ao mesmo tempo, mencionou o sofrimento dos israelenses provocado pelo radicalismo e pelos atos terroristas do Hamas.
O Brasil tenta manter uma posição própria, sem adesão automática aos blocos que dividem o mundo. Considero essa independência importante. Mas ela exige equilíbrio: a busca pela paz não pode relativizar invasões, terrorismo ou ataques contra civis, independentemente de quem os pratique.
A sombra dos Estados Unidos
Outro eixo do discurso foi a crítica à interferência das grandes potências nos assuntos internos de outros países.
Lula falou sobre Cuba, Haiti e Venezuela. Condenou o embargo contra os cubanos, criticou investidas em busca de recursos estratégicos e defendeu que o futuro venezuelano seja decidido pelo próprio povo.
Mesmo quando não citados diretamente, os Estados Unidos eram o principal destinatário dessas declarações.
A América Latina carrega uma longa história de intervenções políticas, econômicas e militares. Isso não significa que todos os problemas da região possam ser atribuídos aos norte-americanos. Cuba, Venezuela e outros países também precisam responder por seus erros econômicos, autoritarismos e violações de direitos.
Soberania não pode servir de escudo para ditaduras. Mas democracia também não deve ser imposta por porta-aviões, bloqueios econômicos ou interferências eleitorais.
Meio ambiente também é soberania
A questão ambiental ocupou uma parte relevante da fala. Lula lamentou que o enfrentamento das mudanças climáticas tenha perdido espaço na agenda mundial justamente quando os eventos extremos se tornam mais frequentes.
O presidente destacou o potencial brasileiro em energia limpa, minerais críticos e terras raras, fundamentais para a transição energética. Defendeu também que a pesquisa de novas reservas de petróleo não significará o abandono da agenda ambiental.
Aqui está uma das contradições mais importantes do nosso tempo. O Brasil precisa preservar a Amazônia, reduzir o desmatamento e aproveitar sua capacidade de produzir energia limpa. Mas também precisa transformar seus recursos naturais em desenvolvimento, renda e melhores condições de vida.
Na minha avaliação, preservar não significa renunciar ao desenvolvimento. Significa produzir com responsabilidade, tecnologia e regras claras. Também significa impedir que países que enriqueceram poluindo tentem impor ao Brasil limites que eles próprios não respeitaram no passado.
A Amazônia pertence ao Brasil. Sua preservação interessa ao mundo, mas as decisões sobre ela precisam respeitar a soberania brasileira.
Foi nesse contexto que Lula afirmou que o Brasil “não cabe no quintal de ninguém”. A frase reúne a essência de sua política externa: o país deseja negociar com Estados Unidos, China, Europa, Rússia e demais parceiros, mas rejeita relações de submissão.
O Brasil precisa de comércio, investimentos e tecnologia. Nenhuma parceria econômica, porém, concede a outro governo o direito de determinar nossas escolhas políticas.
Essa posição ganha força quando se fala em alimentos, energia, Amazônia e minerais estratégicos. O mundo olha para o Brasil por sua capacidade de produzir, por seus recursos naturais e por sua importância ambiental.
O desafio é transformar esse patrimônio em poder de negociação, e não em dependência.
A tentativa de liderar
Lula também procurou se consolidar como porta-voz do chamado Sul Global. É uma ambição antiga. Desde seus primeiros governos, ele tenta apresentar o Brasil como uma ponte entre países ricos e emergentes. Um país que conversa com Washington, Pequim, Bruxelas e Moscou sem se tornar subordinado a nenhum deles.
O Brasil tem dimensão para isso. Possui território, população, alimentos, energia, recursos naturais e peso ambiental.
Mas liderança internacional não se conquista apenas com discursos. Ela depende de uma economia organizada, segurança jurídica, instituições respeitadas e capacidade de cumprir compromissos. Um país fragilizado internamente terá sempre dificuldades para exercer influência no exterior.
Apesar do cenário internacional, a parte politicamente mais importante do pronunciamento estava voltada para dentro do Brasil. Vivemos uma eleição polarizada. Ao falar sobre democracia, soberania e interferência estrangeira, Lula constrói uma narrativa que favorece sua candidatura.
Ele procura se apresentar como o presidente que protege o país das pressões externas. Ao mesmo tempo, tenta aproximar seus adversários de grupos políticos estrangeiros e de setores do governo norte-americano.
É uma estratégia eleitoral evidente. A disputa deixa de ser apenas uma avaliação sobre economia, emprego, segurança e qualidade dos serviços públicos. Passa também a ser apresentada como uma escolha entre soberania e submissão.
Não há nada de errado em um presidente defender o país. Nenhum governo estrangeiro deve interferir em nossas eleições. Os rumos do Brasil precisam ser definidos pelo voto dos brasileiros. Mas seria ingenuidade ignorar o calendário.
Lula subiu à tribuna como chefe de Estado, mas falou também como candidato. Usou o maior palco da diplomacia mundial para reforçar sua imagem de liderança e colocar a soberania no centro da campanha.
Quando afirmou que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, Lula falou às grandes potências. Mas estava, sobretudo, olhando para as urnas.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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