Há uma razão simples para a força política da mudança da escala seis para um: quem trabalha seis dias e descansa apenas um sabe quanto custa ficar longe da família e deixar a própria vida para depois. Essa realidade precisa ser reconhecida por quem discute o assunto no Congresso, nas empresas ou na campanha eleitoral.
O Senado aprovou a proposta de mudança por 75 votos a favor e um contrário, nos dois turnos. O texto, já aprovado pela Câmara, segue para promulgação e prevê duas folgas semanais, sem redução salarial. A jornada máxima cai de 44 para 42 horas após 60 dias da promulgação e chega a 40 horas ao fim de uma transição de 14 meses.
O tamanho da votação também permite uma leitura política. Na reta final da eleição presidencial, contrariar uma proposta com esse apelo significa assumir um desgaste que poucos estão dispostos a enfrentar. Vejo nessa quase unanimidade uma combinação de convicção, pressão social e cálculo eleitoral. Seria ingenuidade imaginar que o voto do trabalhador estivesse fora dessa conta.
Isso não diminui a legitimidade da reivindicação. Obriga, porém, a cobrar dos políticos a mesma disposição para enfrentar aquilo que continuará pesando na vida do trabalhador depois da eleição.
A folga precisa ser de verdade
Um dia adicional de descanso tem valor. Permite acompanhar os filhos, cuidar da saúde, estudar ou simplesmente se recuperar. Para quem vive espremido entre o trabalho e o deslocamento, esse tempo faz diferença.
Mas a qualidade de vida depende também do que o salário compra. Se a renda não cobre as despesas, existe o risco de a nova folga virar mais um dia de trabalho em outra atividade. O direito estará assegurado; a necessidade de complementar o orçamento continuará presente.
É aí que, na minha avaliação, o debate precisa avançar. Defendo que o país crie condições para que o trabalhador possa aproveitar o descanso, com emprego e renda suficientes para sustentar a família.
A conta chega às empresas
Manter o salário e reduzir as horas eleva o custo da hora trabalhada. O efeito sobre cada negócio dependerá da organização, da produtividade e da necessidade de contratar para cobrir os novos horários. Empresas maiores e pequenos estabelecimentos terão capacidades diferentes de adaptação.
Há atividades que não param aos domingos, na cidade e no campo. Uma criação precisa ser alimentada, o leite precisa ser ordenhado e uma operação contínua exige equipes de revezamento. Garantir o descanso nesses casos exige planejamento e negociação que considerem a realidade de cada atividade.
O empresário também tem responsabilidade. Rever processos, investir em tecnologia e organizar melhor as equipes são caminhos para aumentar a produção por hora e melhorar as condições de trabalho. A redução da jornada pode estimular esse esforço, mas seu resultado não será igual nem imediato em todos os setores.
E o projeto para o país?
O que me preocupa é ver tanta disposição para aprovar uma medida popular e tão pouca para enfrentar os problemas que dificultam sua sustentação. O Brasil precisa de um projeto que enfrente o desequilíbrio das contas públicas, reduza a pressão sobre os juros e preserve o poder de compra dos salários.
Com estabilidade, investimento e qualificação, fica mais viável produzir melhor, remunerar melhor e distribuir os resultados do crescimento. É esse compromisso que eu gostaria de ver com a mesma força no Congresso. Ele exige continuidade e decisões que nem sempre rendem aplausos na campanha.
O voto não encerra a responsabilidade
A mudança da escala seis por um merece ser tratada com seriedade. Quem votou a favor assumiu uma responsabilidade que vai além da promulgação. Depois de disputar o reconhecimento pela folga, governo e Congresso precisam mostrar como vão ajudar o país a sustentar emprego, salário e crescimento. O trabalhador continuará precisando dos três quando a eleição terminar.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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