Sempre digo que Lula é um animal político como dificilmente veremos outro nas próximas gerações. É uma avaliação sobre sua capacidade de perceber o ambiente, entender as pessoas e encontrar caminhos para continuar no centro do poder.
Reconhecer essa habilidade independe de preferência partidária. Podemos discordar de suas decisões, criticar seu governo e cobrar resultados. Mas compreender a política brasileira exige entender por que Lula atravessa tantas décadas mantendo tamanha influência.
Sua trajetória ajuda a explicar. Antes de chegar à Presidência, ele conquistou a confiança de trabalhadores, ajudou a fundar o PT e se tornou a principal referência do partido. Venceu eleições presidenciais e teve papel central na eleição de Dilma Rousseff como sua sucessora.
Poucas lideranças conseguem permanecer relevantes por tanto tempo. Menos ainda conseguem reencontrar o eleitor quando os instrumentos que as levaram ao poder começam a envelhecer.
A liderança nasceu onde o trabalhador estava
O Lula sindicalista surgiu em um Brasil muito diferente do atual. Era o país das grandes concentrações de operários, das assembleias e das greves no ABC paulista. Salário, emprego e condições de trabalho reuniam multidões em torno de reivindicações comuns.
Em cima de um caminhão de som, ele falava de problemas que aquelas famílias conheciam dentro de casa. O trabalhador se reconhecia naquele discurso e enxergava nele alguém capaz de representá-lo.
A relação entre capital e trabalho estava no centro daquela mobilização. Lula soube transformar a reivindicação trabalhista em liderança política. O PT, fundado em 1980, nasceu dessa força e da participação de outros movimentos da sociedade.
Mas o país mudou. A tecnologia transformou a produção, os serviços ganharam espaço e novas formas de trabalhar apareceram. Hoje, um jovem pode ganhar a vida por aplicativo, vender pela internet e produzir conteúdo sem jamais participar de uma assembleia sindical.
As preocupações com renda e trabalho continuam. O que mudou foi a maneira de viver esses problemas, conversar sobre eles e buscar representação.
O partido envelheceu. A sociedade seguiu adiante
Na minha avaliação, parte do PT permaneceu presa à linguagem e às estruturas de outro tempo. Suas lideranças tradicionais continuaram ocupando espaço, enquanto muitos brasileiros passaram a construir suas referências longe dos partidos.
Esse distanciamento ajuda a explicar por que ter uma história de representação popular não garante conversar com as novas gerações.
O jovem não entrega sua confiança por herança. Ele quer reconhecer no presente alguma ligação com seus valores, suas dificuldades e suas expectativas. A memória de uma conquista pode ter importância, mas precisa fazer sentido para quem não a viveu.
Lula, apesar de ser o maior símbolo dessa velha estrutura, mostrou capacidade de perceber o que ela já não estava alcançando.
Na eleição de 2026, depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, sua campanha abriu espaço para mudanças na comunicação e para uma mobilização que ganhou as redes e as ruas. Jovens, estudantes e lideranças com atuação digital tiveram participação nessa reação.
Havia gente fora do radar
A meu ver, Lula conseguiu alcançar brasileiros que estavam fora do alcance da política tradicional. Pessoas que não necessariamente se identificavam com o PT, mas que rejeitavam a extrema-direita e encontraram nele uma liderança em torno da qual se mobilizaram.
Esses brasileiros já estavam na sociedade. Tinham valores, opiniões e capacidade de organização. Faltava uma ligação entre essa disposição e a disputa eleitoral.
Nem todo apoio a Lula significou adesão ao programa petista. Houve também quem se movimentasse pela rejeição ao adversário, pela defesa da democracia ou pelo desejo de participar da decisão sobre o futuro do país.
Lula teve a sensibilidade de acolher essa energia. Os jovens também tiveram iniciativa própria: organizaram atos, produziram conteúdo e buscaram votos. A liderança política se fortaleceu nesse encontro.
A direita havia conquistado vantagem no uso das redes sociais. Na reta final, a campanha de Lula ampliou sua presença nesse ambiente, com a atuação de André Janones e de outras lideranças. A reação digital se somou à mobilização nas ruas.
Não atribuo uma vitória eleitoral a uma única causa. Mas vejo nessa mudança um sinal da capacidade de Lula de rever o caminho quando percebe que o anterior já não basta.
Do caminhão de som à tela do celular
O instrumento mudou. Antes, a voz precisava chegar ao fundo de uma assembleia. Agora, a mensagem precisa despertar atenção na tela de um celular e estimular alguém a participar.
Lula não domina sozinho todas essas ferramentas. Sua habilidade está também em reconhecer quem sabe utilizá-las e abrir espaço quando seu projeto político exige uma mudança.
Essa força de comunicação já ultrapassa as fronteiras brasileiras. Na Espanha, a ex-prefeita de Barcelona Ada Colau convocou apoiadores para fazer o “L” de Lula em um ato político. No México, a presidente Claudia Sheinbaum também reproduziu o gesto ao cumprimentá-lo pela vitória.
O sinal começa, assim, a ganhar um significado mais amplo entre setores da esquerda internacional: resistência à extrema-direita e esperança de defender a democracia e as liberdades. Um gesto associado a um nome brasileiro passa a expressar uma identificação política que vai além do seu partido e do seu país.
É nesse sentido que o considero um animal político raro. O líder que nasceu nas greves conseguiu se conectar com brasileiros que nem eram nascidos quando ele ajudou a fundar o PT.
O partido continuará tendo de enfrentar seu envelhecimento e sua dificuldade de renovação. A força pessoal de Lula não resolve esse problema.
Talvez esteja aí a maior evidência de sua singularidade: depois de tantas décadas, o PT ainda depende de Lula para alcançar parcelas de uma sociedade que o próprio partido tem dificuldade de compreender.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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