Quando era mais jovem, Ana Paula dos Santos Silva tinha um sonho: ganhar o mundo. Filha de um açougueiro que, com muito trabalho, conseguiu se tornar pecuarista, a paulista de São João da Boa Vista cresceu acompanhando a transformação dos negócios da família. A evolução financeira permitiu que ela tivesse acesso a oportunidades com as quais seu pai, conhecido como Chico Boiada, dificilmente poderia ter sonhado quando começou a trabalhar.
Formada em Zootecnia, Ana Paula estudou no Canadá, nos Estados Unidos e na Austrália, conheceu diferentes sistemas de produção agropecuária e se preparou para construir uma carreira em uma multinacional do agronegócio.
Os planos mudaram quando os negócios da família cresceram e seu pai precisou de ajuda para administrá-los. Dividida entre os projetos profissionais e a responsabilidade de dar continuidade ao patrimônio construído pela família, ela decidiu voltar às origens.
A escolha não foi fácil. Trocar as oportunidades que havia conquistado pela rotina de uma cidade de aproximadamente 25 mil habitantes, no sul de Minas Gerais, parecia um retrocesso.
“Parecia um regresso voltar para o sul de Minas. Meu sonho de vida era trabalhar na JBS. Era o meu sonho. Tanto que eu fui estagiária de um confinamento da JBS nos Estados Unidos. Fiz meu estágio final lá, queria ser contratada”, relembra.
O que inicialmente parecia uma renúncia acabou se transformando em um novo projeto de vida. Hoje, Ana Paula participa da gestão dos negócios familiares e se tornou uma das responsáveis pelas transformações da Fazenda Cigana, localizada em Campestre, no sul de Minas Gerais.
A propriedade conquistou reconhecimento pelos resultados econômicos e por adotar práticas sustentáveis, enquanto a pecuarista passou a compartilhar sua experiência com milhares de pessoas nas redes sociais. Mas, para chegar até aqui, precisou aprender uma lição que não estava nos livros nem nas universidades por onde passou: nem sempre a melhor maneira de transformar um negócio é fazer tudo de uma vez.
Influência do pai

A trajetória de Ana Paula na pecuária começou muito antes de sua formação universitária. Nascida e criada em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, ela cresceu acompanhando o trabalho do pai no comércio de carnes. A família mantinha um açougue, e a movimentação de carcaças e produtos na câmara fria fazia parte de sua rotina.
Chico Boiada havia crescido em uma realidade bastante diferente daquela que conseguiria proporcionar às filhas. Filho de um trabalhador rural, ele não herdou terras e construiu seu patrimônio a partir do próprio trabalho.
Com o passar dos anos, começou a arrendar propriedades rurais, inicialmente pequenas áreas, depois fazendas maiores, até conseguir adquirir suas próprias terras.
A primeira fazenda veio justamente no ano em que Ana Paula ingressou na universidade, aos 17 anos.
“Meu pai saiu do zero, porque meu avô era funcionário de fazenda. Meu pai nunca ganhou um pedacinho de terra. Ele comprou tudo. A minha situação e a da minha irmã é infinitamente melhor do que a do meu pai”, afirma.
O crescimento dos negócios também foi acompanhado de uma preocupação constante com a educação das filhas. Segundo Ana Paula, o pai sempre valorizou os estudos e incentivou a busca por qualificação profissional.
Apesar de ter crescido próxima à pecuária, Ana Paula não pensava em assumir os negócios da família. A escolha pela Zootecnia teve relação com sua afinidade com o campo e com a vontade de exercer uma profissão que não a mantivesse confinada em um escritório ou consultório.
Ainda durante a graduação, decidiu interromper temporariamente os estudos para viajar ao Canadá, onde aperfeiçoou o inglês.
Ao retornar ao Brasil, retomou a formação e conquistou uma bolsa de estudos em uma universidade do Texas, nos Estados Unidos. Lá, aproveitou a oportunidade para realizar estágios e conhecer diferentes atividades ligadas à pecuária, incluindo uma experiência em um confinamento da JBS.


Depois, veio o mestrado na Austrália, também com bolsa de estudos. Durante esse período, ampliou sua rede de contatos, visitou propriedades rurais e participou de eventos internacionais, incluindo um congresso na China.
“Eu me preparei muito para cair no mercado. Depois, tinha convite para doutorado dos Estados Unidos, doutorado da Austrália, conheci muita gente, visitei muitos confinamentos”, conta.
A dedicação aos estudos também abriu portas para experiências fora das salas de aula. Na universidade do Texas, por exemplo, participou de atividades ligadas a um dos maiores rodeios dos Estados Unidos e realizou outro estágio de verão em uma instituição de ensino.
“Vocês não me viram com 20 anos. Eu era sem parada, porque o mundo era pequeno”, brinca.
Mudanças de plano
Foi durante o mestrado na Austrália que Ana Paula começou a considerar uma mudança de rumo. Com a expansão dos negócios do pai, surgiu a necessidade de alguém com formação técnica para ajudar na administração das propriedades.
Ao retornar ao Brasil, encontrou uma solução intermediária: começou a trabalhar em uma empresa do agronegócio, com sede em Cascavel, no Paraná, enquanto acompanhava as atividades da fazenda.
Durante quatro anos, dividiu seu tempo entre as duas responsabilidades, até perceber que não conseguia mais se dedicar integralmente a nenhuma delas.
Em 2018, tomou a decisão definitiva de deixar o emprego e trabalhar exclusivamente nas propriedades da família.
Apesar das dificuldades, considera que a experiência fora dos negócios familiares foi fundamental para sua formação como gestora.
“Eu acho que todo sucessor deveria ter uma experiência fora. Você aprende a ser funcionário, a ter metas, gerenciar os custos. É uma experiência muito boa para quem vai suceder o próprio negócio trabalhar para outra pessoa antes.”
A revolução
Se a decisão de retornar ao interior foi difícil, a adaptação à gestão familiar trouxe um desafio ainda maior: conciliar o conhecimento técnico adquirido ao longo da formação com a maneira como o pai administrava os negócios.
Ana Paula chegou cheia de ideias. Queria modernizar praticamente todos os processos da fazenda, melhorar a qualidade do rebanho, implantar tecnologias e reformular a gestão.
O problema é que nem todas as mudanças eram financeiramente viáveis ou estavam alinhadas à visão de Chico Boiada.
O resultado foi um intenso choque de gerações. “Foi um choque, uma bomba atômica que explodiu. Foi horrível, porque eu tinha muita ideia. Tinha visto grandes projetos fora e queria implantar muita coisa. Primeiramente, achava que isso aqui era tudo errado, pequeno demais”, recorda.
Com o tempo, a zootecnista percebeu que o conhecimento técnico, sozinho, não era suficiente para administrar uma propriedade rural.
Era necessário compreender as limitações financeiras, respeitar a história da empresa e reconhecer o conhecimento de quem havia construído o patrimônio.
“Eu queria mudar de A a Z, sem ter noção nenhuma de caixa, de infraestrutura. E me achando também, porque a gente sai da faculdade e acha que sabe tudo. Tem que baixar a bola um pouco.”
A principal mudança veio quando Ana Paula entendeu que poderia começar pelas melhorias que exigiam pouco ou nenhum investimento.
Em vez de insistir em grandes transformações, passou a priorizar a organização administrativa, a elaboração de planilhas, a separação das atividades por setores e a implantação de centros de custos.
Também começou a avaliar com mais cuidado as possibilidades de financiamento e o momento adequado para investir em novas tecnologias.
Aos poucos, o pai percebeu os benefícios das mudanças e passou a dar mais autonomia à filha.
“Meu pai também sofreu. Nós dois sofremos. Eu queria fazer acontecer, ele colocando rédea, até que entendi que devia ir devagar. E meu pai também entendeu que eu estava aqui para somar.”
As pequenas conquistas abriram espaço para projetos maiores. A relação entre pai e filha também amadureceu. Ana Paula passou a compreender melhor o valor emocional que o patrimônio tinha para Chico Boiada, enquanto ele começou a confiar mais nas propostas de modernização apresentadas por ela.
“Quem construiu o patrimônio, o avô, o pai, tem um amor visceral, porque foi o suor da pessoa. Quem chega depois, o amor é construído.”
Referência na pecuária


A Fazenda Cigana, em Campestre, tornou-se um dos principais símbolos dessa transformação. Curiosamente, o nome da propriedade não foi escolhido pela família. Quando Chico Boiada adquiriu a fazenda, que anteriormente havia sido utilizada para o cultivo de café, ela já era conhecida como Cigana.
Segundo Ana Paula, existe uma lenda local sobre uma mulher cigana que teria vivido na mata da propriedade. A família gostou do nome e decidiu mantê-lo.
Foi nesse ambiente que ela começou a colocar em prática os conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação.
A combinação entre a experiência do pai, a organização administrativa e a adoção gradual de novas tecnologias contribuiu para melhorar a gestão dos negócios.
Os resultados começaram a chamar a atenção do setor. A Fazenda Cigana conquistou város prêmios de rentabilidade e sustentabilidade. Ana Paula chegou a receber um dos prêmios das mãos do ex-ministro da Agricultura, Carlos Fávaro.
Para ela, as premiações representava a consolidação de um trabalho que começou com o pai e ganhou novas dimensões com a participação da segunda geração.
Mas faz questão de destacar que os resultados precisam ser reais, e não apenas uma imagem construída para o público.
“Eu falo para a minha equipe: não quero fingir que a gente é bom, a gente tem que ser bom. A gente não pode fingir que é uma fazenda boa.”
Influenciadora digital


A entrada de Ana Paula nas redes sociais também aconteceu de maneira inesperada. Apesar de sempre ter gostado de comunicação, ela não havia transformado esse interesse em uma atividade regular.
Foi durante uma fase emocionalmente difícil que, aconselhada por sua terapeuta, decidiu procurar uma ocupação que funcionasse como uma válvula de escape para a rotina e ajudasse a recuperar o bem-estar.
A ideia era encontrar um hobby. Entre as possibilidades, escolheu algo que já despertava seu interesse havia muito tempo: gravar vídeos.
Começou mostrando o cotidiano da fazenda, os desafios da produção e situações comuns à rotina de quem trabalha com pecuária.
Mesmo com poucos seguidores, Ana Paula descobriu que gostava de produzir conteúdo e conversar com o público.
A visibilidade aumentou depois que a Fazenda Cigana recebeu o primeiro prêmio. Na época, seu perfil tinha aproximadamente 5 mil seguidores. A partir daí, vieram convites para podcasts, entrevistas, palestras e participações em eventos nacionais e internacionais, como a Semana do Clima de Nova York e a COP30, realizada em Belém.
Hoje, a pecuarista reúne quase 80 mil seguidores e divide sua rotina entre a administração da fazenda e a produção de conteúdo. Para ela, as redes sociais passaram a representar não apenas uma oportunidade de comunicação, mas também uma forma de valorização pessoal e profissional.
O trabalho como influenciadora, no entanto, acrescentou mais uma jornada à sua rotina. Ana Paula costuma começar o dia na academia, seguir para a fazenda e permanecer envolvida nas atividades administrativas até o fim da tarde. Depois, grava vídeos sobre o cotidiano da propriedade. À noite, em casa, ainda encontra tempo para editar as imagens e publicar o conteúdo.
“Eu chego em casa à noite, vou editar meus vídeos e vou subir enquanto estou fazendo janta, porque é meu segundo turno essa parte de influenciadora. É todo dia um vídeo e eu faço a edição.”
Apesar do trabalho, garante que a atividade continua sendo uma fonte de satisfação. “Para mim, a internet é um hobby. Dá trabalho, mas me dá prazer. É a minha narrativa, é a minha história.”
Mulher na pecuária
Em um setor predominantemente dominado por homens, Ana Paula também precisou conquistar seu espaço como gestora.
Ela conta que já enfrentou situações em que sua capacidade profissional foi questionada, especialmente em negociações e na contratação de serviços.
Na avaliação da pecuarista, o conhecimento técnico é uma das principais ferramentas para enfrentar essas dificuldades.
“Temos que ter muito conhecimento para não ser passadas para trás em preços, em questões de orçamento. Temos que mostrar muito serviço.”
Ana Paula também defende que as mulheres conheçam profundamente os processos produtivos, os custos e as características dos serviços contratados, para que possam tomar decisões com segurança. “Conhecimento liberta”, resume.
Ela conta que, em algumas situações, fornecedores demonstram surpresa ao descobrir que a pessoa responsável pela administração é uma mulher. Apesar disso, procura lidar com essas experiências sem perder o foco nos resultados.
Nas redes sociais, Ana Paula afirma que a maior parte de seu público é formada por homens, que representam cerca de 65% dos seguidores. Para ela, esse dado reforça o interesse pelo conteúdo técnico e pelo trabalho desenvolvido na fazenda.
A pecuarista não esconde os erros, dificuldades e decisões que não deram certo. Pelo contrário, acredita que mostrar também esses momentos ajuda a construir uma relação de confiança com quem acompanha sua rotina.
“Eu falo: erramos aqui, meu curral alagou, eu briguei com meu pai, acertamos nisso, erramos naquilo. Então, nós realmente somos referência pelo nosso trabalho.”
Planos para o futuro


Com o passar dos anos, Ana Paula encontrou satisfação em participar do crescimento dos negócios familiares.
Comprar uma máquina, ampliar o confinamento, construir novas instalações ou adquirir terras passaram a representar conquistas importantes em sua vida.
“Eu me encontrei aqui, tocando os nossos negócios, sonhando em crescer. Comprar um caminhão novo, um barracão novo, adquirir terra. Acho que sonhar em família, ter os projetos acontecendo, tirando do papel, é muito bom.”
Os planos para o futuro incluem expandir a estrutura da Fazenda Cigana e contribuir para o desenvolvimento da região, melhorando as condições de vida das pessoas que trabalham nas propriedades. “Todo mundo tem que crescer junto. Não adianta crescer sozinho.”
Já na vida pessoal, Ana Paula guarda outro desejo: construir sua própria família. A filha de Chico Boiada diz que quer se casar novamente e ter filhos.

















