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Como o esgotamento da cota chinesa pode afetar o preço da carne bovina

Como o esgotamento da cota chinesa pode afetar o preço da carne bovina


Foto: Freepik

A notícia de que a ociosidade dos frigoríficos pode pressionar as cotações da arroba chamou a atenção do mercado nesta semana. Afinal, quando a indústria passa a operar abaixo de sua capacidade ideal, aumenta sua necessidade de proteger margens e reduzir custos. O caminho mais rápido costuma ser pressionar o preço pago pelo boi gordo.

Mas será que essa movimentação é suficiente para provocar uma queda consistente da arroba? Talvez não.

O mercado pecuário possui uma característica que muitas vezes é esquecida nos momentos de maior turbulência: o preço não é determinado apenas pela demanda. A oferta tem papel igualmente decisivo.

E é justamente nesse ponto que a análise merece mais cautela.

Embora existam preocupações sobre o ritmo das exportações e sobre possíveis ajustes nas compras de importantes mercados importadores, o Brasil não vive hoje uma situação de abundância de animais prontos para abate. O ciclo pecuário continua relativamente equilibrado e não há sinais claros de uma explosão de oferta capaz de derrubar os preços de forma estrutural.

A indústria tenta ganhar espaço

A elevada ociosidade dos frigoríficos é um fato. Plantas industriais foram construídas ou ampliadas ao longo dos últimos anos apostando no crescimento das exportações e do consumo global de proteínas.

Quando a capacidade instalada cresce mais rapidamente do que a disponibilidade de animais, surge uma disputa por matéria-prima. Em momentos de incerteza, porém, a indústria procura inverter esse jogo e utilizar o noticiário para ganhar poder de negociação junto aos pecuaristas.

Isso não significa que a pressão seja artificial. Ela existe. Mas é importante diferenciar um movimento de negociação de curto prazo de uma mudança efetiva nos fundamentos do mercado.

Outro fator que merece atenção é o comportamento do clima. Em diversas regiões produtoras, a chegada do período seco costuma provocar aumento temporário da oferta de animais. Pecuaristas com menor disponibilidade de pastagens ou suplementação podem antecipar vendas, criando uma sensação momentânea de excesso de boi.

O problema é que essa oferta adicional nem sempre se sustenta por muito tempo. Passado esse período, o mercado frequentemente volta a enfrentar restrições de disponibilidade, especialmente quando a reposição não acompanha o ritmo dos abates.

O mundo continua comprando proteína

Existe ainda um aspecto estrutural que não pode ser ignorado. A demanda global por proteína animal continua crescendo.

O Brasil consolidou sua posição como um dos fornecedores mais competitivos do planeta e hoje atende dezenas de mercados. Quando um comprador reduz o ritmo das aquisições, nem sempre isso representa uma perda definitiva de demanda. Muitas vezes ocorre apenas uma redistribuição dos fluxos comerciais.

Por isso, a leitura de que qualquer dificuldade momentânea nas exportações resultará automaticamente em forte queda da arroba parece simplista demais.

O cenário atual sugere cautela, mas não pânico.É possível que a arroba enfrente momentos de pressão nas próximas semanas. É possível também que os frigoríficos consigam alongar escalas e negociar preços mais baixos em algumas regiões.

No entanto, os fundamentos da pecuária brasileira continuam relativamente sólidos. A oferta segue controlada, a demanda mundial permanece firme e o Brasil continua ocupando posição estratégica no abastecimento global de carne bovina.

Em outras palavras, o mercado pode até enfrentar turbulências de curto prazo, mas ainda faltam evidências para sustentar a tese de uma queda profunda e duradoura da arroba.

Quem acompanha a pecuária sabe que, muitas vezes, o barulho do mercado é maior do que a mudança efetiva dos seus fundamentos.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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