USD: R$ -- EUR: R$ -- BTC: R$ -- USD: R$ -- EUR: R$ -- BTC: R$ --
Navegando:
destino ao alcance ou sonho eterno?

destino ao alcance ou sonho eterno?


O trigo, insumo essencial na produção de alimentos como pães, massas e bolos, é um dos cereais mais estratégicos do mundo. No Brasil, porém, a cadeia produtiva do grão enfrenta desafios históricos e estruturais que ainda impedem o país de atingir a autossuficiência. Desde a centralização estatal imposta pelo decreto-lei nº 210, de 1967, até choques recentes — como a guerra entre Rússia e Ucrânia e as oscilações no mercado internacional —, a trajetória da triticultura brasileira tem sido marcada por avanços e recuos.

Este artigo traça uma linha do tempo da produção nacional de trigo, examinando os principais entraves e as oportunidades no caminho rumo à autossuficiência.

A era da centralização: decreto-lei (DL) nº 210/1967

Em 1967, o governo federal instituiu o decreto-lei nº 210, criando a Comissão Brasileira de Política do Trigo e centralizando toda a cadeia produtiva sob controle estatal. A medida visava garantir o abastecimento interno e reduzir a dependência crescente das importações. Com a centralização, o governo passou a controlar preços, importações, moagem e distribuição. Embora tenha trazido certa previsibilidade e incentivado a produção em estados do Sul, o modelo resultou em uma cadeia pouco competitiva, fortemente engessada por regras e subsídios.

Durante a vigência do decreto (1967–1989), a produção nacional cresceu de 1,8 milhão para 2,5 milhões de toneladas — um aumento de 39%. Esse avanço, no entanto, decorreu principalmente da expansão da área plantada, que saltou de 1,3 milhão para 1,8 milhão de hectares (54%). Ou seja, o crescimento foi quantitativo (baseado em expansão de área), não qualitativo. A produtividade permaneceu baixa, reflexo de um ambiente com pouca competição e estímulos limitados à inovação.

A abertura e a descentralização: década de 1990

A década de 1990 marcou o fim da centralização estatal na cadeia do trigo. Com a abertura econômica iniciada no governo Collor e aprofundada no governo FHC, o setor passou a operar sob a lógica de mercado. O Estado deixou de exercer controle direto, e os preços passaram a ser definidos pelas cotações internacionais.

Esse processo de liberalização trouxe efeitos ambíguos. De um lado, houve aumento da competitividade, maior entrada de tecnologias e estímulo à pesquisa agropecuária — com destaque para o papel da Embrapa Trigo. De outro, a volatilidade dos preços e a concorrência com o trigo importado, especialmente da Argentina, desestimularam o plantio em diversas regiões. O Brasil passou a importar cerca de 50% do trigo que consome, tornando-se estruturalmente dependente do mercado externo.

Além da desregulamentação iniciada em 1990, o setor teve de se adaptar à criação do Mercosul, com o Tratado de Assunção (1992), que zerou a Tarifa Externa Comum (TEC) para o trigo, e à valorização cambial trazida pelo Plano Real, a partir de 1994. Sem instrumentos estatais de proteção e incentivo, a produção nacional entrou em retração: a área plantada encolheu, e a dependência externa aumentou, com importações variando entre 50% e 60% do consumo anual. Apesar de representar um processo doloroso, essa reestruturação era necessária para a modernização do setor.

2000–2010: o câmbio como motor de competitividade

No início dos anos 2000, o Brasil experimentou um cenário de câmbio flutuante que mudaria profundamente a dinâmica da triticultura nacional. A ampla desvalorização do real — que chegou a cair cerca de 33% entre fevereiro de 1999 e meados de 2002 — encareceu o trigo importado em até 30% no mercado interno. Esse choque cambial, longe de penalizar o setor, abriu uma janela de oportunidade para que o produtor brasileiro ganhasse competitividade, visto que o grão nacional passou a ter preço mais atraente frente às compras externas.

Embora a área plantada tenha se mantido praticamente estável, a produção nacional avançou de 3,8 para 5,0 milhões de toneladas no mesmo período. Esse crescimento expressivo foi resultado de ganhos substanciais de produtividade: o rendimento médio evoluiu de cerca de 1.854 kg/ha para 2.381 kg/ha, um aumento de 28%.

A desvalorização cambial foi o principal catalisador para que produtores investissem em tecnologias de cultivo mais modernas. A adoção de cultivares tropicalizadas pela Embrapa Trigo, a disseminação do plantio direto e o manejo integrado de solo e pragas tornaram-se economicamente viáveis diante de preços internos mais lucrativos. Além disso, a maior rentabilidade justificou o uso ampliado de fertilizantes e defensivos de última geração, elevando a eficiência da lavoura.

Portanto, entre 2000 e 2010, o câmbio não foi apenas uma variável macroeconômica: foi o motor que impulsionou uma virada na triticultura brasileira, demonstrando como a política cambial pode, indiretamente, fomentar o avanço tecnológico e produtivo em uma cadeia agrícola estratégica.

Avanços recentes e desafios estruturais

Nos últimos anos, diversos fatores reacenderam o debate sobre a autossuficiência tritícola no Brasil. Entre 2020 e 2022, a alta nas commodities agrícolas — impulsionada pela pandemia de Covid-19 e por políticas monetárias expansionistas — elevou significativamente os preços internacionais do trigo. Simultaneamente, a guerra entre Rússia e Ucrânia, dois dos maiores exportadores mundiais do grão, desestabilizou as cadeias globais de suprimento, acentuando a preocupação com a segurança alimentar.

Diante desse cenário, o Brasil passou a observar com maior atenção sua capacidade interna de produção. Enquanto o Paraná e o Rio Grande do Sul seguiram como os principais estados produtores, novas fronteiras agrícolas começaram a despontar, especialmente no Cerrado. Pesquisas recentes demonstraram a viabilidade de cultivares adaptadas ao clima tropical em regiões como o Mato Grosso e o Distrito Federal, apontando potencial de expansão da triticultura.

Apesar desses avanços, persistem obstáculos estruturais relevantes. A ausência de políticas públicas consistentes para o setor, aliada à volatilidade cambial e aos altos custos de produção, dificulta a consolidação do trigo como uma cultura de larga escala no país. Mesmo com o crescimento da produtividade e a abertura de novas áreas de cultivo, o Brasil permanece dependente das importações para suprir sua demanda interna, que gira em torno de 12 milhões de toneladas por ano.

O sonho da autossuficiência: realidade ou miragem?

O Brasil possui, de fato, potencial agronômico e tecnológico para ampliar significativamente sua produção de trigo. A atuação da Embrapa e de empresas privadas, com o desenvolvimento de cultivares adaptadas, técnicas de manejo mais eficientes e os avanços em regiões como o Cerrado, demonstram progressos importantes. Além disso, a crescente preocupação com os riscos da dependência externa fortalece o debate sobre o tema.

No entanto, considerar a autossuficiência como um objetivo plenamente viável a curto ou médio prazo exige cautela. O país ainda enfrenta entraves estruturais importantes, como o alto custo de produção em relação a concorrentes internacionais, deficiências logísticas e a ausência de políticas consistentes e de longo prazo para sustentação da triticultura. A dependência de importações, principalmente da Argentina, permanece uma realidade econômica difícil de contornar.

Os recentes aumentos de produção foram, em grande medida, resposta a eventos conjunturais – como a pandemia de Covid-19 e o conflito entre Rússia e Ucrânia – que distorceram temporariamente o mercado global. Internamente, o destaque vai para o Rio Grande do Sul, que tem diversificado a demanda com exportações e iniciativas como a produção de etanol de trigo. Porém, essas movimentações, embora relevantes, não sinalizam uma transição sólida rumo à autossuficiência. Pelo contrário, indicam uma reorganização de mercado mais voltada à inserção comercial do que ao abastecimento interno autônomo.

Diante disso, a autossuficiência em trigo no Brasil ainda parece mais um ideal estratégico do que um cenário realista. O futuro da triticultura brasileira dependerá menos de desejos e mais de decisões políticas coordenadas, investimentos consistentes e, sobretudo, de um olhar pragmático sobre as limitações e oportunidades do país nesse setor.

*Élcio Bento é especialista em trigo graduado em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Faz parte da divisão de especialistas de Safras & Mercado há mais de 20 anos


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.



Source link

Assine nossa Newsletter

Sinta-se no campo com as notícias mais atualizadas sobre o universo do agronegócio.

Sem spam, você pode cancelar a qualquer momento.


Notícias Relacionadas

FGV aponta redução de ruídos diplomáticos após encontro entre Lula e Trump

O encontro entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, realizado em Washington na quarta-feira (7), marcou uma redução do que o Indicador de Comércio Exterior (Icomex) classificou como “ruídos diplomáticos permanentes” entre os dois países. A avaliação foi divulgada nesta sexta-feira (15) pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), que também apontou riscos externos para as exportações brasileiras. Segundo o relatório, o avanço no diálogo político entre Brasil e Estados Unidos ainda não encerra as discussões técnicas, que serão tratadas em reuniões entre representantes dos dois governos. O Icomex destaca que a normalização

CTZL encerra 10ª prova de leite a pasto e premia animais zebuínos no DF

A décima edição da Prova Brasileira de Produção de Leite a Pasto do Zebu Leiteiro foi encerrada nesta quarta-feira (13) no Centro de Tecnologia para Raças Zebuínas Leiteiras (CTZL), no Recanto das Emas (DF). A programação reuniu criadores, pesquisadores e representantes de entidades parceiras para divulgar os resultados finais, premiar os animais com melhor desempenho e homenagear pessoas ligadas à consolidação do centro. A prova é uma avaliação zootécnica realizada anualmente pelo CTZL em parceria com a Associação dos Criadores de Zebu do Planalto (ACZP) e outras instituições. O objetivo é medir, em condições padronizadas, a eficiência produtiva e funcional de matrizes leiteiras criadas a

IBGE registra queda de 1,2% no volume de serviços em março, com recuo liderado por transportes

O volume de serviços no Brasil caiu 1,2% em março de 2026 na comparação com fevereiro, segundo dados da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (15). Após estabilidade no mês anterior, o resultado foi influenciado por quedas em todas as cinco atividades investigadas, com destaque para transportes, que recuaram 1,7%. De acordo com o IBGE, o setor acumula perda de 1,7% desde outubro de 2025, mês em que a série atingiu seu ponto mais alto recente. Além dos transportes, também recuaram os serviços profissionais, administrativos e complementares (-1,1%), informação e comunicação (-0,9%), outros serviços (-2,0%)

Comissão de Saúde aprova projeto para reforçar proteção contra violência em serviços de saúde

A Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quinta-feira (15), o Projeto de Lei 619/25, que obriga serviços de saúde públicos e privados a manter ambientes seguros e livres de violência para crianças, adolescentes e pessoas com deficiência. A proposta segue em análise na Casa e ainda precisa passar por nova etapa antes de ser votada pelo plenário, se houver recurso. O parecer aprovado acolheu o substitutivo elaborado anteriormente pela Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência. O relator, deputado Dr. Flávio (PL-RJ), afirmou que a nova versão amplia a adequação do texto às normas já existentes de proteção de direitos.

Especialistas discutem disputa entre EUA e China na transição energética

A rivalidade entre Estados Unidos e China na economia da energia foi tema de debate nesta quinta-feira (14), no São Paulo Innovation Week, em São Paulo. No painel “Eletrotech Versus da Petrotech: A Geopolítica e o Futuro da Energia”, especialistas avaliaram como a disputa por liderança energética vem sendo influenciada por conflitos no Oriente Médio, pela crise climática e pela corrida por novas tecnologias. A discussão foi mediada pela jornalista Luciana Ribeiro Dyniewicz e reuniu Juan Carlos Castilla-Rubio, presidente da SpaceTime Labs, e Edmar Luiz Fagundes de Almeida, professor e pesquisador do Instituto de Energia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Segundo

Paraná anuncia R$ 114,8 milhões para obras em Dois Vizinhos e inclui estradas rurais

O governador Carlos Massa Ratinho Junior anunciou nesta quinta-feira (14), em Dois Vizinhos, no Sudoeste do Paraná, um pacote de R$ 114,8 milhões em investimentos estaduais para saúde, infraestrutura urbana, educação, desenvolvimento social e estradas rurais. Do total, R$ 22,1 milhões serão destinados à área rural, com foco em pavimentação de vias de escoamento e apoio operacional ao município. Na área agropecuária, o principal eixo do pacote está na melhoria da logística local. Segundo o governo estadual, o investimento rural será executado por meio da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento e inclui R$ 11,2 milhões para a pavimentação da estrada Mazurana/São Francisco da Bandeira,

Comissão da Câmara debate política nacional para terras raras e minerais críticos

A Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados realiza, nesta terça-feira (19), uma audiência pública para discutir a elaboração de uma Política Nacional de Terras Raras, Minerais Críticos e Estratégicos. O debate está previsto para as 14h, em plenário ainda a ser definido. A proposta é reunir informações técnicas e institucionais para subsidiar a discussão legislativa sobre o tema. O requerimento para a audiência foi apresentado pelo deputado Rogério Correia (PT-MG). Segundo o parlamentar, a discussão busca estruturar uma política pública que articule três eixos: exploração mineral, desenvolvimento tecnológico e industrialização no território nacional. De acordo com o deputado, o Brasil possui potencial

Fenasul Expoleite 2026 realiza desfile dos campeões no domingo (17/5) em Esteio

A 19ª Fenasul e 46ª Expoleite terá neste domingo (17/5), às 10h, o tradicional desfile dos campeões, em Esteio (RS). A atividade será realizada na Pista do Gado de Leite, no Parque de Exposições Assis Brasil, e marca o encerramento da programação oficial da feira. O evento é voltado à pecuária leiteira, à agricultura familiar e ao agronegócio gaúcho. O desfile dos campeões reúne os animais e expositores premiados ao longo da feira, em uma agenda de encerramento que tradicionalmente concentra a apresentação dos principais resultados técnicos obtidos durante a exposição. Segundo a programação divulgada, o secretário da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do

Comissão da Câmara aprova divórcio unilateral em cartório para vítima de violência doméstica

A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados aprovou, nesta quinta-feira (15), um projeto de lei que permite à mulher vítima de violência doméstica pedir unilateralmente o divórcio ou a dissolução de união estável diretamente em cartório. Hoje, esse procedimento extrajudicial depende do consenso entre as partes. O texto ainda será analisado em outras etapas do Congresso antes de poder virar lei. A proposta aprovada é o substitutivo apresentado pela relatora, deputada Rogéria Santos (Republicanos-BA), ao Projeto de Lei 3343/25, de autoria do deputado Cleber Verde (MDB-MA). O texto preserva a possibilidade já prevista na Lei Maria da Penha de que

BNDES abre nova etapa do Brasil Soberano com R$ 21 bilhões para empresas estratégicas

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) começou a receber nesta sexta-feira (15) os pedidos de crédito da nova fase do Plano Brasil Soberano. Nesta etapa, serão disponibilizados R$ 21 bilhões para empresas de setores considerados estratégicos e impactadas por instabilidade geopolítica, conflitos internacionais e medidas tarifárias externas. Do total, R$ 15 bilhões estão previstos na Medida Provisória 1.345/2026, publicada em março, e outros R$ 6 bilhões serão acrescentados pelo próprio BNDES. Segundo o banco, o programa atende companhias exportadoras e fornecedores relevantes para a balança comercial brasileira. Os recursos poderão ser usados em quatro frentes: capital de giro, capital de giro voltado