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Foi dada a largada: Lula e Flávio abrem a eleição que pode redesenhar o Brasil

Foi dada a largada: Lula e Flávio abrem a eleição que pode redesenhar o Brasil


Neste domingo (16), a campanha eleitoral começou oficialmente. A legislação passou a permitir propaganda, comícios, caminhadas e pedidos explícitos de voto.

E os dois candidatos que lideram as pesquisas escolheram palcos carregados de simbolismo para dar a largada.

Lula voltou ao Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, berço de sua trajetória sindical e política. Flávio Bolsonaro foi à Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, território consagrado pelas grandes manifestações do bolsonarismo.

As imagens resumem o ponto de partida da eleição: de um lado, Lula procurando recuperar a memória do sindicalista que chegou à Presidência; do outro, Flávio tentando transformar a herança política do pai em um projeto próprio.

Os dois começaram falando para quem já está dentro de suas bolhas. A eleição, porém, será decidida principalmente por quem está fora delas.

Dois palanques voltados ao passado

No ABC paulista, Lula apostou na emoção, na própria biografia e na comparação com o governo Bolsonaro. Apresentou o lema “Onde tudo começou” e o slogan “O Brasil pronto para mais”.

Fez acenos às mulheres e aos jovens, defendeu a soberania nacional e voltou a prometer a criação do Ministério da Segurança Pública, condicionada à aprovação da PEC da Segurança pelo Congresso.

O ato teve presença estimada entre 20 mil e 30 mil pessoas e contou com caravanas de militantes, movimentos sociais e partidos aliados.

Lula utilizou sua maior vantagem: a experiência e uma história política conhecida por praticamente todo o país. Mas essa vantagem também contém um risco.

Quem pede um quarto mandato não pode oferecer somente memória, realizações anteriores e o medo da volta do adversário. Precisa explicar com clareza o que fará de novo, por que ainda não fez e como financiará suas promessas.

Em Copacabana, Flávio Bolsonaro reproduziu um áudio do pai, adotou o slogan “O Brasil vai vencer” e concentrou o discurso em críticas ao governo Lula, ao sistema político e ao Supremo Tribunal Federal.

Falou em segurança pública, prometeu cortar gastos e cargos e procurou se aproximar do eleitorado feminino com a defesa de ações contra a violência à mulher.

Também tentou disputar o conceito de soberania: argumentou que um país não é soberano quando partes de seu território e a vida cotidiana dos cidadãos estão sob o domínio do crime.

Flávio mostrou que herdou uma base mobilizada, mas ainda precisa provar que possui identidade e capacidade próprias.

O público em Copacabana foi considerado reduzido até mesmo por aliados, que alegaram tratar-se de um comício, e não de uma manifestação.

Até o fechamento deste artigo, não havia uma estimativa independente consolidada e comparável à do evento de Lula. De qualquer maneira, público de largada é demonstração de militância, não previsão de resultado eleitoral.

Ronaldo Caiado também deu a largada em Goiás, com missa em Goiânia e uma carreata por municípios do entorno do Distrito Federal. O candidato do PSD reafirmou sua oposição a Lula e destacou a segurança pública como uma de suas principais bandeiras.

Ainda atrás nas pesquisas, Caiado tenta ocupar o espaço do eleitor de centro-direita que deseja uma alternativa tanto ao PT quanto ao bolsonarismo.

Romeu Zema também iniciou sua campanha em Montes Claros, com participação em uma missa e uma caminhada. O candidato do Novo destacou a segurança, prometeu endurecer as leis penais e construir um presídio de segurança máxima, apresentando-se como alternativa liberal na disputa pelo eleitorado de direita e centro-direita.

Dois projetos com diferenças reais

Os programas apresentados mostram divergências importantes.

Na economia, Lula defende a manutenção do atual arcabouço fiscal, mais investimento público, nova etapa do PAC, políticas industriais e expansão de programas sociais.

É a visão de um Estado que induz o crescimento e procura distribuir renda.

Flávio propõe um “tesouraço”: novo teto de gastos, corte de pelo menos dez ministérios, redução de cargos comissionados e despesas administrativas, além da retomada de privatizações e concessões.

É uma proposta de Estado menor, com maior ênfase no equilíbrio fiscal e na iniciativa privada.

Na segurança, Lula aposta em coordenação entre União, estados e municípios, inteligência, combate financeiro às facções e maior controle de armas.

Flávio defende classificar grandes facções como organizações narcoterroristas, construir novos presídios de segurança máxima e reduzir a maioridade penal em determinados crimes.

Na relação entre os Poderes, Lula promete enfrentar a distorção provocada pelas emendas parlamentares, que consomem parte crescente do orçamento disponível.

Flávio propõe limitar decisões individuais de ministros do STF, alterar regras de foro e acabar com a reeleição presidencial.

São diferenças relevantes. Mas ainda falta responder à pergunta mais simples e mais importante: essas propostas param em pé?

Lula promete investimento, crescimento e ampliação da presença do Estado, mas ainda não apresenta um ajuste estrutural das despesas capaz de reduzir a dívida, o risco fiscal e os juros.

Flávio promete cortes e uma nova âncora fiscal, mas sua campanha ainda não detalhou como o novo modelo funcionaria nem quais despesas seriam efetivamente reduzidas.

Um programa de governo não pode ser apenas uma lista de intenções. Precisa conter números, prioridades, prazos e fontes de financiamento.

A insatisfação é maior que a indecisão

É importante fazer uma distinção. As pesquisas atuais não mostram que mais da metade dos brasileiros esteja sem candidato.

A pesquisa Quaest divulgada na sexta-feira colocou Lula com 38% e Flávio com 31% no primeiro turno; 10% estavam indecisos e 8% declaravam voto branco, nulo ou abstenção.

Em um eventual segundo turno, Lula tinha 43% e Flávio, 40%, dentro de uma disputa apertada.

O número que supera 50% é a rejeição: 54% dizem que não votariam em Flávio e 52% rejeitam Lula.

Outra pesquisa recente, da Nexus/BTG, mostrou que, entre os eleitores que já indicaram um candidato, 75% consideram sua decisão definitiva e 23% admitem mudar.

Portanto, o eleitorado disponível não é maioria, mas pode decidir a eleição. E há uma insatisfação majoritária com as opções dominantes.

Esse eleitor não está necessariamente nas ruas, não usa camiseta de candidato e pode decidir o voto apenas nas últimas semanas.

Em muitos casos, escolherá menos por entusiasmo e mais para impedir a vitória de quem rejeita.

Esse é o grande desafio de Lula e Flávio: atravessar a fronteira das próprias bolhas.

Lula precisa conversar com quem reconhece seus programas sociais, mas está preocupado com custo de vida, juros, dívida pública, segurança e desgaste do governo.

Flávio precisa convencer quem deseja mudança, mas ainda duvida de sua experiência, de sua autonomia em relação ao pai e da viabilidade de suas propostas.

Uma eleição que vai muito além do Planalto

Esta será uma das eleições mais importantes desde a redemocratização.

Não apenas pela polarização entre esquerda e direita, mas porque o país escolherá como enfrentar uma combinação delicada de dívida elevada, juros altos, baixa produtividade, insegurança, pressão sobre os serviços públicos e tensão entre as instituições.

E o eleitor precisa olhar além da Presidência. Em outubro, serão escolhidos os 513 deputados federais e renovadas 54 das 81 cadeiras do Senado.

Nenhum presidente governa sozinho. É o Congresso que aprova o orçamento, altera leis, fiscaliza o Executivo e pode viabilizar ou bloquear qualquer projeto de país.

Não adianta exigir mudança no Planalto e reconduzir ao Parlamento políticos cuja prioridade é controlar verbas, ampliar emendas e garantir a própria reeleição.

Se o Brasil continuar elegendo um Congresso interessado apenas na sobrevivência de seus integrantes, qualquer presidente ficará novamente dependente de negociações caras, fragmentadas e pouco transparentes.

O Brasil precisa de uma campanha à altura

Foi dada a largada. A democracia exige confronto, crítica e diferença. Mas confronto não precisa significar agressão permanente, e diferença não dispensa responsabilidade.

O Brasil precisa saber como cada candidato pretende equilibrar as contas públicas, reduzir os juros, melhorar a segurança, elevar a qualidade da educação, ampliar a infraestrutura, dar competitividade à indústria e ao agronegócio e reconstruir a confiança nas instituições.

Precisa também saber quais promessas dependem do Congresso, quanto custarão e em quanto tempo poderão produzir resultados.

Se a campanha ficar presa ao passado, às ofensas e ao medo do adversário, o Brasil corre o risco de terminar a eleição exatamente como começou: dividido, frustrado e sem direção.

Se os candidatos apresentarem propostas coerentes, factíveis e verificáveis, esta eleição poderá ser mais do que uma troca de governo. Poderá ser uma escolha real de futuro.

Uma eleição tão importante não pode ser apenas um concurso de rejeição. O país merece decidir entre projetos — e não apenas entre medos.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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