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Tarifaço pode afetar agro, política externa e a credibilidade de Trump

Tarifaço pode afetar agro, política externa e a credibilidade de Trump


A sobretaxa de 50% imposta pelos Estados Unidos sobre diversos produtos brasileiros — como café, carne e suco de laranja e outros — têm prazo estabelecido para revisão: 1º de agosto de 2025. A expectativa no meio diplomático e empresarial é intensa, mas a previsibilidade, quase nula.

O que está em jogo não é apenas uma questão comercial. Trata-se de uma disputa que ganhou contornos ideológicos, jurídicos e eleitorais. A medida foi tomada unilateralmente pelo presidente Donald Trump em meio a uma escalada verbal contra o Supremo Tribunal Federal, em especial contra o ministro Alexandre de Moraes, a quem o governo americano acusa de perseguição política à família Bolsonaro.

Na prática, a sobretaxa de 50% não teve justificativas técnicas, sanitárias ou ambientais. Foi uma retaliação disfarçada de sanção comercial. Trump buscou atender à base bolsonarista no Brasil, que o enxerga como um aliado estratégico contra o que chamam de “ativismo judicial”.

A retaliação tarifária foi, portanto, uma resposta simbólica à atuação de Moraes, que vinha endurecendo decisões judiciais contra aliados de Bolsonaro. Isso aproxima a política externa americana de uma pauta tipicamente brasileira, o que é inédito e perigoso.

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A grande dúvida é: por que Donald Trump, em pleno segundo mandato, dobraria sua aposta em torno da defesa de Bolsonaro e sua família, quando o próprio ex-presidente brasileiro hoje tem pouca relevância estratégica real para os Estados Unidos?

Essa aliança é mais simbólica do que prática. Bolsonaro não comanda um Estado, não controla o Congresso e nem representa um bloco político consolidado. Já Trump enfrenta crescente rejeição no cenário internacional, não conseguiu conter a ofensiva russa na Ucrânia, apoia de forma acrítica a ofensiva israelense em Gaza, e sua imagem está associada à instabilidade global.

Na política interna americana, cresce a desconfiança entre republicanos moderados quanto à radicalização de Trump. Há quem veja nas sanções ao Brasil um erro de cálculo que pode custar caro ao partido Republicano nas eleições de meio de mandato, previstas para novembro de 2026.

O desgaste internacional,com protestos em universidades, críticas de governos aliados e instabilidade econômica, começa a respingar nos Estados Unidos. A inflação nos alimentos, a perda de mercados importadores e os custos logísticos estão sendo sentidos por empresas e consumidores americanos.

A resposta mais prudente é: depende do humor político. Tecnicamente, o governo americano não sustenta a medida, ela é frágil em termos legais na OMC e contraproducente para a indústria americana. No entanto, se Trump decidir estender o conflito como forma de manter sua base radical mobilizada, a renovação da tarifa não pode ser descartada.

Conclusão: o que está por trás da disputa?

Essa crise não é apenas sobre o Brasil ou Alexandre de Moraes. Tampouco se limita à família Bolsonaro. É sobre até onde um presidente dos EUA pode ir para impor sua vontade ideológica ao mundo, mesmo que isso custe caro ao seu país. E mais: até que ponto o Brasil continuará aceitando ser tratado como peão num jogo que não começou aqui?

O Brasil precisa agir com firmeza e inteligência. Seja com a retirada ou a manutenção das sobretaxas, a mensagem central é clara: precisamos de uma política externa soberana, de uma estratégia comercial diversificada e, sobretudo, de uma classe política que entenda que o mundo mudou, e não há mais espaço para submissão nem para aventuras ideológicas alheias.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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