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Desenrola 2.0 no campo: a chance de virar o jogo antes da próxima safra

Desenrola 2.0 no campo: a chance de virar o jogo antes da próxima safra


Imagem gerada por inteligência aritifical

Para quem vive da terra, o sono nunca é tranquilo. Clima, custo de produção, preço no mercado… sempre tem alguma variável te tirando o sossego. Nos últimos anos, porém, uma preocupação passou a dominar todas as outras: a dívida acumulada.

É exatamente aí que entra o Desenrola 2.0 no campo. Pela primeira vez, a agricultura familiar ganhou uma janela real de reorganização financeira. Não resolve todos os problemas da vida, mas pode ser o ponto de virada para muita gente que está com o nome travado no banco ou na União.

O governo estima que cerca de 280 mil produtores possam ser beneficiados nesta fase. Um número que impressiona. E tem um dado que mostra a cara do problema: quase 70% das dívidas na Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) são de até R$ 10 mil. Ou seja, é um volume enorme de gente pequena, com dívidas que, na prática, têm jeito de serem equacionadas.

Quem pode entrar

O programa foi feito pensando em quem realmente está apertado: agricultores familiares (Pronaf), assentados, quilombolas, pescadores artesanais.

Tem ainda o filtro de renda: até cinco salários mínimos. E as dívidas precisam estar atrasadas entre 90 dias e dois anos (até janeiro de 2026). Não é para todo mundo. É para quem está mais pressionado.

O tamanho do alívio

Aqui é onde a coisa fica interessante. Descontos podem chegar a 96% para quitação à vista. Na média do dia a dia, o que se tem visto é redução em torno de 65%. Isso muda completamente a matemática da dívida.

Quem não consegue pagar tudo de uma vez ainda tem parcelamento com juros de até 1,99% ao mês e prazo de até 60 meses.

Dá para alinhar a parcela com o ciclo da produção. Não é milagre, mas é um respiro concreto.

E quem deve mais? Para as dívidas maiores, fora do alcance do Desenrola, o caminho é outro: alongamento via BNDES, com prazos que podem chegar a 10 ou 12 anos. A ideia é transformar uma dívida que sufoca em algo que caiba no fluxo de caixa do campo.

Mas há um alerta que ninguém pode ignorar: o Desenrola resolve o passado, não garante o futuro.

Especialistas veem o programa como um remédio emergencial, importante, necessário, mas insuficiente sozinho. Se o produtor não organizar as contas depois da renegociação, corre o sério risco de voltar para o mesmo buraco.

E tem um detalhe crucial: sem regularizar as dívidas, o acesso ao Plano Safra 2026/27 fica comprometido. Sem crédito e sem seguro rural, o risco explode. Regularizar agora não é só limpar o nome. É garantir a próxima safra.

Como fazer?

O processo é relativamente simples:

  • Dívidas com a União: Portal Regularize da PGFN
  • Dívidas bancárias: agências do Banco do Brasil e da Caixa
  • Prazo de adesão nesta fase: 90 dias.

Quem deixar passar essa janela pode demorar anos para ter uma oportunidade parecida.

O Desenrola 2.0 não é a solução definitiva para os problemas do campo. Mas, para muitos produtores, pode ser a diferença entre continuar na atividade ou ter que entregar as chaves. No campo, decisão difícil é rotina. Dessa vez, porém, o maior risco pode ser não decidir.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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