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O agro é tudo. Inclusive, endividado

O agro é tudo. Inclusive, endividado


Imagem gerada por IA para o Canal Rural

O agronegócio brasileiro virou sinônimo de potência econômica. Durante anos, o país ouviu que “o agro é pop”, “o agro é tech”, “o agro é tudo”. E, de fato, o setor se transformou no principal motor da economia brasileira.

Foi o campo que sustentou exportações, garantiu superávits comerciais e segurou parte importante do crescimento do PIB nos momentos mais difíceis da economia.

Mas existe uma realidade que começa a aparecer de forma mais clara: o agro também está altamente endividado.

E talvez este seja um dos momentos financeiros mais delicados vividos pelo produtor rural nas últimas décadas. O campo cresceu apoiado em crédito. Muito crédito.

Nos últimos anos, produtores investiram pesado em máquinas, tecnologia, expansão de área, armazenagem e irrigação. O agro brasileiro entrou numa corrida gigantesca de modernização.

O problema é que boa parte desse crescimento foi financiada com dinheiro caro. Hoje, o estoque de financiamento privado do agronegócio já supera R$ 1,4 trilhão. Somente o crédito rural empresarial da safra 2025/2026 ultrapassa R$ 350 bilhões.

Ou seja: o agro cresceu. Mas cresceu alavancado.

O problema é que o cenário mudou. Os preços da soja, do milho e de outras commodities perderam força. Ao mesmo tempo, os juros elevados aumentaram brutalmente o custo financeiro do produtor.

Além disso, o setor enfrenta uma combinação extremamente perigosa:

  • fertilizantes caros;
  • combustíveis pressionados;
  • clima irregular;
  • crédito mais seletivo;
  • margens apertadas;
  • dólar volátil.

O produtor rural hoje trabalha pressionado dos dois lados: vende mais barato e produz mais caro.

O resultado é um estrangulamento financeiro crescente. A crise saiu da porteira e chegou ao sistema financeiro. Os números começam a assustar.

As dívidas ligadas a processos de recuperação extrajudicial no agro já somam cerca de R$ 98 bilhões em 2026.

E o Congresso discute agora um grande projeto de renegociação das dívidas rurais, cujo impacto pode chegar entre R$ 150 bilhões e R$ 170 bilhões em 2027, dependendo do modelo aprovado.

Isso revela o tamanho da crise silenciosa que começa a surgir dentro do setor mais importante da economia brasileira.

Existe uma contradição evidente. O agro brasileiro talvez seja um dos mais eficientes do mundo dentro da porteira. Mas fora dela enfrenta um ambiente extremamente hostil:

  • juros altos;
  • logística cara;
  • volatilidade cambial;
  • dependência de fertilizantes importados;
  • insegurança climática crescente.

O campo brasileiro virou refém de uma engrenagem financeira extremamente pesada. E o problema não para no produtor. Essa crise pode contaminar toda a cadeia:

  • cooperativas;
  • revendas;
  • tradings;
  • bancos;
  • transportadoras;
  • fabricantes de máquinas;
  • fornecedores de insumos.

Quando o produtor perde capacidade de investimento, todo o sistema desacelera. E isso preocupa porque o agro hoje é o grande carro-chefe da economia brasileira.

Boa parte do crescimento do país nos últimos anos passou pelo campo. Por isso, o debate atual não é simplesmente sobre “perdão de dívida”.

A discussão real é outra:

Como evitar que o principal motor econômico do Brasil entre num ciclo de descapitalização?

O governo teme o impacto fiscal. Os bancos temem aumento do risco de crédito. O mercado tem uma inadimplência crescente.

E o produtor teme perder capacidade de produção justamente num momento de competição global cada vez mais agressiva.

O agro continua gigante. Mas ficou dependente da dívida. O Brasil criou um agro extremamente competitivo.Mas talvez tenha criado também um agro excessivamente dependente de endividamento.

E agora surge uma pergunta inevitável: até onde esse sistema consegue suportar?

Porque o agro continua sendo pop. Mas o pop, neste momento, está pressionado por uma das maiores alavancagens financeiras da história do campo brasileiro.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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