USD: R$ -- EUR: R$ -- BTC: R$ -- USD: R$ -- EUR: R$ -- BTC: R$ --
Navegando:
Lei da Reciprocidade: Brasil tem a arma em mãos, mas ainda não puxou o gatilho

Lei da Reciprocidade: Brasil tem a arma em mãos, mas ainda não puxou o gatilho


O governo brasileiro divulgou nota repudiando a decisão dos EUA de impor tarifas de 25% sobre produtos vindos do Brasil

O Brasil decidiu mostrar aos Estados Unidos que a negociação continua aberta, mas que já não acontece com o país de mãos vazias. Ao iniciar o procedimento previsto na Lei da Reciprocidade Econômica, o governo ainda não aplicou nenhuma tarifa contra produtos americanos. Colocou, porém, sobre a mesa um instrumento legal que poderá ser utilizado se o diálogo não avançar.

Essa diferença é importante. O que começou agora foi o processo de avaliação das medidas adotadas por Washington, acompanhado de consultas diplomáticas. A retaliação não é automática, nem existe uma lista definitiva de produtos ou setores atingidos.

A Lei nº 15.122 foi aprovada pelo Congresso e sancionada em abril de 2025. Sua regulamentação veio três meses depois, por meio do Decreto nº 12.551. A legislação autoriza o Brasil a reagir quando outro país ou bloco econômico adota medidas unilaterais que prejudiquem a competitividade brasileira, violam acordos comerciais ou tentam interferir em decisões soberanas do país. Confira o texto da lei.

É justamente nesse ponto que o governo brasileiro pretende enquadrar as tarifas americanas. Na avaliação de Brasília, elas não nasceram de uma investigação técnica convencional sobre dumping, subsídio ou ameaça à indústria dos Estados Unidos. Foram acompanhadas de cobranças sobre decisões judiciais, regras do Pix, questões ambientais e outros temas internos.

Portanto, assumiram um caráter político e ideológico que ultrapassa a discussão comercial.

O que a lei permite fazer

A reação brasileira pode assumir diferentes formas. A mais direta seria aumentar tarifas ou limitar a importação de determinados produtos e serviços dos Estados Unidos.

O país também pode suspender concessões comerciais e de investimentos, alterar a tributação incidente sobre determinadas remessas e rever obrigações ligadas à propriedade intelectual.

Na prática, isso abre espaço para medidas sobre bens importados, serviços, royalties e o setor audiovisual. Em um cenário mais extremo, pode alcançar patentes farmacêuticas ou agrícolas. Entretanto, a própria lei determina que a suspensão de direitos de propriedade intelectual seja excepcional, utilizada apenas quando outras alternativas não forem suficientes.

Isso não significa que o Brasil possa escolher qualquer produto e simplesmente fechar a fronteira. A resposta deve ser, na medida do possível, proporcional ao prejuízo provocado e precisa evitar que o custo recaia sobre a própria economia brasileira.

O procedimento normal começa na Câmara de Comércio Exterior, a Camex. O órgão precisa identificar quais setores brasileiros foram atingidos, estimar o dano econômico e verificar se as medidas estrangeiras realmente se enquadram nas hipóteses previstas na lei.

A análise inicial pode levar até 30 dias, prorrogáveis por mais 30. Depois, o Comitê-Executivo de Gestão da Camex também delibera sobre o enquadramento.

Se o processo avançar, um grupo de trabalho poderá elaborar as contramedidas, ouvindo ministérios, empresas e entidades representativas. A proposta passa por consulta pública e chega, por fim, ao Conselho Estratégico da Camex, responsável pela decisão definitiva. Esse rito está detalhado no Decreto nº 12.551.

Existe ainda um caminho mais rápido para situações excepcionais e urgentes. Nesse caso, um comitê formado pelos ministérios do Desenvolvimento, da Fazenda, das Relações Exteriores e pela Casa Civil pode adotar uma resposta provisória enquanto o procedimento ordinário continua.

A negociação permanece aberta

É exatamente por ser gradual que a lei funciona também como instrumento de pressão. O Brasil pode preparar uma resposta, dimensionar seu alcance e, ao mesmo tempo, continuar negociando.

Se os Estados Unidos reduzirem tarifas, ampliarem exceções ou oferecerem compensações, as contramedidas brasileiras poderão ser adiadas, reduzidas, alteradas ou suspensas.

Portanto, não se trata necessariamente de trocar uma tarifa americana por outra brasileira de igual percentual. A reciprocidade será calibrada pelo impacto econômico. O governo pode concentrar a reação nos setores em que exista maior capacidade de pressão sobre Washington e menor risco de prejudicar consumidores e empresas brasileiras.

A abertura do processo é, antes de tudo, um recado político: o canal diplomático permanece funcionando, mas a negociação agora ocorre sob a possibilidade concreta de uma resposta.

O cuidado com o agronegócio

Para o agro, essa escolha exige precisão cirúrgica. Máquinas, defensivos, tecnologias, genética, medicamentos veterinários e outros insumos importados não podem ser encarecidos apenas para produzir uma resposta política.

Uma tarifa mal escolhida acabaria cobrando do produtor brasileiro a conta de uma disputa criada no exterior.

Por outro lado, o Brasil precisa defender café, suco de laranja, madeira, fumo, sebo bovino e demais produtos atingidos. As exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 12,2% entre janeiro e julho de 2026, enquanto os itens mais sobretaxados tiveram queda ainda mais acentuada.

O dano, portanto, deixou de ser apenas uma possibilidade e começou a aparecer nos números.

Uma lei forte não dispensa prudência

O Brasil também levou o caso à Organização Mundial do Comércio. Esse caminho é importante para demonstrar que a contestação brasileira não é apenas política. Porém, a solução pode demorar, sobretudo porque o sistema de apelação da OMC continua paralisado.

Há ainda um limite que não pode ser ignorado: possuir uma lei nacional não torna qualquer retaliação automaticamente compatível com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil.

Quanto mais técnica, proporcional e transparente for a resposta, maior será sua legitimidade e menor o risco de uma nova contestação.

A Lei da Reciprocidade não deve ser entendida como uma autorização para uma guerra comercial impensada. Sua maior força pode estar justamente na possibilidade de não precisar ser utilizada por inteiro. Ela mostra que o Brasil deseja negociar, mas dispõe de meios para reagir.

O recado é simples: diálogo não significa submissão. Quando tarifas são utilizadas para pressionar decisões soberanas e levar disputas políticas para dentro do comércio, o Brasil tem o direito de se defender.

A reciprocidade, nesse caso, deve funcionar primeiro como escudo. A espada só deve sair da bainha se a negociação fracassar.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

O post Lei da Reciprocidade: Brasil tem a arma em mãos, mas ainda não puxou o gatilho apareceu primeiro em Canal Rural.



Source link

Assine nossa Newsletter

Sinta-se no campo com as notícias mais atualizadas sobre o universo do agronegócio.

Sem spam, você pode cancelar a qualquer momento.


Notícias Relacionadas

Brasil registra recorde na produção de leite pelo segundo ano seguido

A produção de leite no país atingiu o recorde de 36,7 bilhões de litros em 2025, uma alta de 2,7% em relação ao ano anterior. O resultado é o terceiro ano seguido de expansão e foi alcançado mesmo com a queda de 2,7% no número de vacas ordenhadas no período, totalizando 14,7 milhões de animais. O dado, que revela aumento de produtividade, faz parte da Pesquisa da Pecuária Municipal, divulgada nesta quarta-feira (30) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  O instituto aponta que o total de vacas ordenhadas é o menor desde 1979 (14,9 milhões de cabeças). O recorde é de 2011, com 23,2

confira os preços do dia

O mercado físico do boi gordo manteve viés de firmeza nesta quarta-feira (30), embora os reajustes ocorram de maneira mais localizada entre as principais regiões produtoras. Segundo o analista da consultoria Safras & Mercado Fernando Henrique Iglesias, as escalas de abate permanecem concentradas entre seis e sete dias úteis, sustentando a perspectiva de preços firmes no curto prazo. “Os frigoríficos de pequeno e médio porte continuam enfrentando maior dificuldade para completar suas programações, enquanto as grandes indústrias operam com maior conforto, apoiadas por animais de parceria e confinamentos próprios”, detalha. De acordo com ele, mesmo após a valorização recente da arroba, o contrato de outubro

Arayara aciona Justiça para barrar 15 blocos da ANP na bacia do Parnaíba

O Instituto Internacional Arayara informou na terça-feira (29) que ajuizou uma Ação Civil Pública (ACP), com pedido de tutela de urgência, para impedir a oferta de 15 blocos de petróleo e gás na bacia do Parnaíba, no Maranhão e no Piauí. Os lotes integram o leilão da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) marcado para 7 de outubro. A ação foi protocolada na 8ª Vara Federal Ambiental do Maranhão. A ação tem como foco os blocos PN-T-14, 29, 32, 33, 49, 67, 86, 101, 114, 137, 150, 151, 166, 168 e 182. Segundo a diretora executiva do Arayara, Nicole Oliveira, a oferta

China não autoriza Brasil a utilizar excedente da cota uruguaia de carne bovina

A empolgação do setor exportador brasileiro de carne bovina durou pouco: o anúncio de que o Uruguai cederia ao Brasil o excedente de sua cota da proteína à China, anunciado pelo presidente Lula no dia 21 de setembro, precisava, ainda, do aval dos asiáticos. E ele não veio. De acordo com informações da agência Reuters confirmadas pelo Canal Rural, os chineses não concordaram em permitir que o Brasil utilize a parcela destinada ao país vizinho neste ano ou no próximo. Desta forma, conforme previsto desde janeiro, quando a China anunciou que cobraria tarifa adicional de 55% sobre ​as remessas de carne bovina que ultrapassassem 1,1

Brasil alcançou maturidade institucional para atrair projetos ferroviários, diz secretário

O secretário nacional de transporte ferroviário do Ministério dos Transportes, Leonardo Cezar Ribeiro, afirmou nesta quarta-feira (30) que o Brasil atingiu um novo patamar institucional para atrair projetos de infraestrutura. Durante fórum da Câmara Espanhola de Comércio no Brasil, ele disse que o país reúne segurança jurídica, atuação regulatória e instrumentos capazes de sustentar a expansão ferroviária. Segundo Ribeiro, o setor ferroviário vive um momento de execução simultânea de oito empreendimentos totalmente novos, os chamados greenfields. Ao citar esse volume de obras em andamento, o secretário destacou que o movimento tem sido puxado pelo setor privado. Entre os projetos mencionados estão a Ferrovia de Integração

Cota de carne bovina do Brasil na China é esgotada e sobretaxa começa em três dias

O volume de carne bovina importado pela China sob o mecanismo de salvaguarda comercial atingiu 100% do limite destinado ao Brasil na terça-feira (29). Com isso, as compras que excederem a cota anual de 1,106 milhão de toneladas para 2026 passarão a sofrer tarifa adicional de 55% a partir do terceiro dia subsequente ao esgotamento do teto, segundo o Ministério do Comércio da China. A medida está prevista no Anúncio nº 87/2025 do Ministério do Comércio da China. Com o fim da cota, a sobretaxa temporária será aplicada aos volumes que ultrapassarem o limite anual. Essa cobrança será somada à tarifa de importação de 12%

FPA diz que relatório da MP das dívidas rurais mantém barreiras à renegociação

A apresentação do relatório da Medida Provisória 1.376/2026, nesta segunda-feira (29), abriu os primeiros passos da análise da proposta que trata da renegociação das dívidas rurais. Na avaliação da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o texto trouxe avanços pontuais, mas manteve obstáculos para o acesso dos produtores às linhas de repactuação. Segundo a FPA, o principal impasse permanece na comprovação de perdas exigida para enquadramento dos produtores elegíveis. A bancada afirma que o pedido de simplificação dos laudos agronômicos não foi atendido pelo relator, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), o que preserva a exigência de documentos que, na avaliação do grupo, dificultam a adesão à medida.

‘Grande passo’, diz Tereza Cristina sobre sanção da nova lei do seguro rural

Autora do projeto que deu origem à nova lei do seguro rural, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) afirmou nesta quarta-feira (30) que a sanção representa um avanço para ampliar a segurança dos produtores diante das perdas no campo. Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News! A Lei nº 15.526/2026 foi sancionada na terça-feira (29) e publicada nesta quarta no Diário Oficial da União (DOU). A norma tem origem no Projeto de Lei (PL) 2.951/2024, apresentado pela senadora, e estabelece novas regras para o seguro rural no país. “Temos muito ainda a avançar,

Novo marco do Seguro Rural é sancionado e destrava fundo de catástrofe

O projeto de lei que moderniza o Seguro Rural no Brasil foi sancionado e publicado no Diário Oficial nesta quarta-feira (30). A nova legislação altera regras do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), viabiliza a operacionalização do fundo de catástrofe e estabelece novos parâmetros para contratação e pagamento de sinistros. A proposta foi tratada como prioridade da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) em 2026. No Senado, a autoria é da vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS). Na Câmara dos Deputados, a relatoria ficou com o presidente da bancada, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR). Segundo Lupion, a lei reúne medidas voltadas à gestão

Rebanho bovino recua para 234,3 milhões de cabeças em 2025

O rebanho bovino brasileiro somou 234,3 milhões de cabeças em 2025, queda de 1,7% na comparação com 2024 e o menor nível desde 2022. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (30) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) 2025. Segundo o levantamento, foi a segunda retração anual consecutiva do efetivo bovino no país. O IBGE atribuiu a redução ao aumento do abate nos últimos quatro anos, com destaque para as fêmeas. Mesmo com a queda, o Centro-Oeste permaneceu com o maior rebanho do país, com 72,2 milhões de cabeças, o equivalente a 30,8% do total, embora tenha registrado