O presidente Lula afirmou, durante um ato de campanha em Florianópolis, que, se a relação com o agronegócio dependesse do dinheiro liberado pelo governo, os produtores deveriam “não só votar, mas se ajoelhar” diante dele.
- Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News!
Considero essa declaração lamentável. Não porque o presidente não possa defender as ações de seu governo. Pode e deve. O problema é tratar uma política pública como concessão pessoal, e o produtor como alguém que recebeu um favor. Em uma democracia, ninguém deve se ajoelhar diante de governante algum.
O Plano Safra não pertence ao presidente da República. É uma política de Estado, construída ao longo de décadas e financiada por diferentes fontes.
Para a safra 2026/2027, foram anunciados mais de R$ 610 bilhões: R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 85,2 bilhões para o Pronaf. Mas é preciso entender esses números.
Esse valor não corresponde integralmente a dinheiro retirado do Tesouro e entregue aos produtores. Grande parte vem da poupança rural, dos depósitos obrigatórios, dos bancos, dos fundos constitucionais e das Letras de Crédito do Agronegócio.
O produtor toma o financiamento, paga juros, oferece garantias e devolve cada centavo. Mesmo quando existe equalização, o governo cobre apenas parte da diferença entre a taxa oferecida ao produtor e o custo do dinheiro.
Crédito rural não é doação. Muito menos favor pessoal.
O campo entrega sua contrapartida
Se o governo oferece crédito, o setor responde com produção, alimentos, empregos, impostos e dólares para o país.
Em 2025, o agronegócio brasileiro exportou US$ 169 bilhões e gerou um superávit próximo de US$ 149 bilhões. Esse resultado compensa déficits de outros setores e ajuda a manter a balança comercial brasileira no azul.
A agropecuária também foi decisiva para o crescimento recente da economia. Em 2025, enquanto o PIB brasileiro avançou 2,3%, o setor agropecuário cresceu 11,7%.
Sem o desempenho do campo, o resultado da economia teria sido bem mais fraco. Essa é uma realidade que qualquer governo precisa reconhecer.
O produtor não vive de anúncio
Todo ano, o Plano Safra é apresentado como o maior da história. Mas o produtor não vive do valor anunciado. Vive do dinheiro que chega à conta, na hora certa e com juros que caibam dentro da atividade.
Hoje, o setor enfrenta crédito caro, margens menores, bancos mais seletivos, aumento dos custos, falta de seguro rural e perdas provocadas por secas e enchentes.
No Rio Grande do Sul, milhares de produtores atravessaram safras seguidas de prejuízos. Foram anunciadas renegociações e linhas emergenciais, mas boa parte do setor continua endividada e encontra dificuldade para transformar promessas em crédito disponível.
Não basta anunciar bilhões. É preciso saber quanto foi contratado, quem conseguiu acessar, a que taxa e em que prazo.
A comida não nasce por decreto
A comida que chega à mesa dos brasileiros não nasce de discurso nem de cerimônia em Brasília. Depende de investimento, tecnologia, trabalho e risco.
Quando os alimentos sobem, isso não significa necessariamente que o produtor esteja ganhando mais. Muitas vezes, a pressão vem do diesel, da energia, dos fertilizantes, dos juros, do transporte, do clima ou das cotações internacionais.
Grande parte desses custos está fora do controle do produtor. Ainda assim, é ele quem planta sem saber quanto colherá e por quanto conseguirá vender.
Respeito não se exige de joelhos
O presidente Lula tem o direito de apresentar os números de sua administração e buscar o reconhecimento político que considerar justo. O produtor também tem o direito de avaliar o governo e votar de acordo com suas convicções.
Mas uma coisa não pode ser confundida com a outra.
Crédito público não compra voto. A política agrícola não cria uma dívida pessoal de gratidão. E o dinheiro anunciado pelo governo não pertence ao governante.
Se o Brasil deve agradecer a alguém, é ao produtor que planta, cria, investe, emprega, exporta e mantém o abastecimento mesmo enfrentando juros altos, clima adverso e insegurança financeira.
O produtor rural não deve se ajoelhar diante de nenhum presidente. São os governos que deveriam reconhecer, com respeito e políticas eficientes, a importância de quem sustenta uma parte decisiva da economia brasileira.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
O post Produtor rural não deve se ajoelhar diante de nenhum governo apareceu primeiro em Canal Rural.

















