USD: R$ -- EUR: R$ -- BTC: R$ -- USD: R$ -- EUR: R$ -- BTC: R$ --
Navegando:
o acerto de contas que espera o Brasil

o acerto de contas que espera o Brasil


A eleição vai terminar. Os problemas que ela ajudou a agravar continuarão. Quem assumir a Presidência em janeiro terá de enfrentar um acerto de contas com decisões tomadas, despesas assumidas e conflitos que o Brasil vem adiando.

Minha preocupação é com a distância entre o discurso de campanha e as condições para governar em 2027. Prometer é uma coisa. Financiar as promessas, recuperar a confiança nas instituições e preservar a capacidade de investimento exigem escolhas que dificilmente aparecem no palanque.

Para o agronegócio, essa discussão precisa começar agora. O produtor toma decisões antes de conhecer o resultado da safra. Compra insumos, contrata crédito e compromete receitas num país em que a política pode alterar o custo de produção.

Vejo um desarranjo na relação entre os Poderes, agravado pela polarização. O episódio envolvendo André Mendonça, Flávio Dino e Luiz Fux expôs esse desgaste: uma ordem do TSE para retirar publicações foi contrariada no STF e, depois, restabelecida provisoriamente por outro ministro.

Divergências jurídicas fazem parte de um tribunal. Mas a sucessão de decisões individuais conflitantes, em plena campanha, alimenta a percepção de que preferências políticas podem influenciar a atuação de integrantes da Corte.

Essa percepção não prova a intenção de cada ministro. Ainda assim, cobra um preço da instituição. A sociedade precisa entender quais regras valem, quem tem competência para decidir e como os conflitos serão resolvidos.

Quando essa confiança se enfraquece, o desgaste ultrapassa a política. A insegurança pode adiar investimentos, aumentar a exigência de garantias e encarecer o financiamento. No campo, contratos e projetos dependem de previsibilidade por muitos anos.

As bets deixam uma conta depois da proibição

A proibição das bets, anunciada pelo governo por medida provisória na reta final da eleição, alcança apostas esportivas e jogos online. Ela responde a um problema social real: o jogo compulsivo compromete a renda, destrói relações familiares e agrava dificuldades financeiras.

Mas retirar uma plataforma do ar não elimina a dependência de quem perdeu o controle sobre as apostas. Sem tratamento e fiscalização efetiva, existe o risco de parte desses usuários procurar operadores clandestinos, onde a proteção é ainda menor.

Também há uma conta jurídica. Empresas receberam autorizações, pagaram outorgas e assumiram contratos. A medida afasta indenizações, mas isso não impede contestações judiciais. O setor já recorreu ao Supremo contra a proibição.

Seria precipitado tratar essas disputas como indenizações certas. Seria igualmente imprudente ignorar a possibilidade de litígios prolongados e seus custos.

O próximo governo terá de lidar com essas consequências. A decisão tomada agora exige continuidade no atendimento aos dependentes, no combate ao mercado ilegal e na recuperação financeira das famílias.

A despesa continua depois da campanha

Os anúncios recentes também alteram as contas de 2027. A recomposição do Bolsa Família amplia despesas, o novo programa de renegociação de dívidas exige recursos e a proibição das bets retira uma fonte de arrecadação prevista no Orçamento.

Não questiono a necessidade de proteger famílias vulneráveis. Questiono a sustentabilidade das escolhas e o momento político em que foram anunciadas. Na minha avaliação, há conveniência eleitoral em concentrar medidas populares tão perto da votação.

O benefício pode ser justo. Seu financiamento precisa ser explicado com a mesma clareza com que ele é anunciado.

O governo seguinte terá de definir prioridades, rever gastos e benefícios tributários e negociar com o Congresso. Se adiar esse trabalho, o risco fiscal pode manter o dinheiro caro e limitar o crescimento.

Há ainda o peso das dívidas do governo, das empresas e das famílias. Os juros do setor público já ultrapassaram R$ 1 trilhão em doze meses, enquanto as famílias comprometem quase 30% da renda com o pagamento de dívidas. Nas empresas mais endividadas, a geração de caixa pode ser insuficiente para cobrir os encargos financeiros. Sem crescimento sustentado, baseado em produtividade e geração de riqueza, será cada vez mais difícil reduzir esse passivo. Negociar alivia o vencimento, mas é preciso gerar renda para pagar a conta.

O mundo pode tornar o ajuste mais difícil

O Brasil enfrentará essas pendências num ambiente internacional de dívida elevada e pressões sobre os juros. Guerras e tensões comerciais podem encarecer energia, transporte e insumos, além de reduzir a disposição dos investidores para assumir riscos.

Não há garantia de uma alta generalizada dos juros em 2027. Há, porém, o risco de o financiamento continuar caro por mais tempo. O FMI já aponta pressões fiscais e geopolíticas e projeta desaceleração da economia brasileira no próximo ano.

Mesmo com avanços recentes na redução da desigualdade, a concentração de renda mantém muitas famílias vulneráveis. Para quem tem pouca reserva financeira, uma alta de preços ou a perda do emprego compromete rapidamente o consumo, inclusive de alimentos.

O agro precisa se preparar

Para o produtor, o acerto de contas pode aparecer em crédito mais seletivo, juros elevados e menor espaço no Orçamento para políticas essenciais, como o seguro rural.

O câmbio acrescenta outra dificuldade. Um dólar mais alto pode melhorar a receita das exportações, mas também encarece fertilizantes, defensivos e equipamentos importados. O resultado depende dos custos e da situação financeira de cada propriedade.

Minha leitura é que o agro precisa entrar em 2027 com atenção ao caixa, às dívidas e aos compromissos da próxima safra. E cobrar do novo governo uma política econômica que permita produzir com previsibilidade.

O acerto de contas será inevitável, qualquer que seja o vencedor. O que ainda podemos escolher é como enfrentá-lo.

Se houver responsabilidade, o ajuste pode ser organizado. Se prevalecer o adiamento, a conta chegará pelo juro, pela inflação e pela perda de renda. O produtor rural conhece bem o custo de deixar uma dívida crescer.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.



Source link

Assine nossa Newsletter

Sinta-se no campo com as notícias mais atualizadas sobre o universo do agronegócio.

Sem spam, você pode cancelar a qualquer momento.


Notícias Relacionadas

Brasil alcançou maturidade institucional para atrair projetos ferroviários, diz secretário

O secretário nacional de transporte ferroviário do Ministério dos Transportes, Leonardo Cezar Ribeiro, afirmou nesta quarta-feira (30) que o Brasil atingiu um novo patamar institucional para atrair projetos de infraestrutura. Durante fórum da Câmara Espanhola de Comércio no Brasil, ele disse que o país reúne segurança jurídica, atuação regulatória e instrumentos capazes de sustentar a expansão ferroviária. Segundo Ribeiro, o setor ferroviário vive um momento de execução simultânea de oito empreendimentos totalmente novos, os chamados greenfields. Ao citar esse volume de obras em andamento, o secretário destacou que o movimento tem sido puxado pelo setor privado. Entre os projetos mencionados estão a Ferrovia de Integração

Cota de carne bovina do Brasil na China é esgotada e sobretaxa começa em três dias

O volume de carne bovina importado pela China sob o mecanismo de salvaguarda comercial atingiu 100% do limite destinado ao Brasil na terça-feira (29). Com isso, as compras que excederem a cota anual de 1,106 milhão de toneladas para 2026 passarão a sofrer tarifa adicional de 55% a partir do terceiro dia subsequente ao esgotamento do teto, segundo o Ministério do Comércio da China. A medida está prevista no Anúncio nº 87/2025 do Ministério do Comércio da China. Com o fim da cota, a sobretaxa temporária será aplicada aos volumes que ultrapassarem o limite anual. Essa cobrança será somada à tarifa de importação de 12%

FPA diz que relatório da MP das dívidas rurais mantém barreiras à renegociação

A apresentação do relatório da Medida Provisória 1.376/2026, nesta segunda-feira (29), abriu os primeiros passos da análise da proposta que trata da renegociação das dívidas rurais. Na avaliação da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), o texto trouxe avanços pontuais, mas manteve obstáculos para o acesso dos produtores às linhas de repactuação. Segundo a FPA, o principal impasse permanece na comprovação de perdas exigida para enquadramento dos produtores elegíveis. A bancada afirma que o pedido de simplificação dos laudos agronômicos não foi atendido pelo relator, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), o que preserva a exigência de documentos que, na avaliação do grupo, dificultam a adesão à medida.

‘Grande passo’, diz Tereza Cristina sobre sanção da nova lei do seguro rural

Autora do projeto que deu origem à nova lei do seguro rural, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) afirmou nesta quarta-feira (30) que a sanção representa um avanço para ampliar a segurança dos produtores diante das perdas no campo. Veja em primeira mão tudo sobre agricultura, pecuária, economia e previsão do tempo: siga o Canal Rural no Google News! A Lei nº 15.526/2026 foi sancionada na terça-feira (29) e publicada nesta quarta no Diário Oficial da União (DOU). A norma tem origem no Projeto de Lei (PL) 2.951/2024, apresentado pela senadora, e estabelece novas regras para o seguro rural no país. “Temos muito ainda a avançar,

Novo marco do Seguro Rural é sancionado e destrava fundo de catástrofe

O projeto de lei que moderniza o Seguro Rural no Brasil foi sancionado e publicado no Diário Oficial nesta quarta-feira (30). A nova legislação altera regras do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), viabiliza a operacionalização do fundo de catástrofe e estabelece novos parâmetros para contratação e pagamento de sinistros. A proposta foi tratada como prioridade da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) em 2026. No Senado, a autoria é da vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS). Na Câmara dos Deputados, a relatoria ficou com o presidente da bancada, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR). Segundo Lupion, a lei reúne medidas voltadas à gestão

Rebanho bovino recua para 234,3 milhões de cabeças em 2025

O rebanho bovino brasileiro somou 234,3 milhões de cabeças em 2025, queda de 1,7% na comparação com 2024 e o menor nível desde 2022. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (30) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na Pesquisa da Pecuária Municipal (PPM) 2025. Segundo o levantamento, foi a segunda retração anual consecutiva do efetivo bovino no país. O IBGE atribuiu a redução ao aumento do abate nos últimos quatro anos, com destaque para as fêmeas. Mesmo com a queda, o Centro-Oeste permaneceu com o maior rebanho do país, com 72,2 milhões de cabeças, o equivalente a 30,8% do total, embora tenha registrado

Novo marco do Seguro Rural é sancionado e viabiliza fundo de catástrofe

O novo marco legal do Seguro Rural foi sancionado nesta quarta-feira (30) e publicado no Diário Oficial. A lei moderniza o sistema, altera regras do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e viabiliza a operacionalização do fundo de catástrofe. A proposta foi tratada como prioridade pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) em 2026. Entre os principais pontos da nova legislação está a reestruturação do fundo de catástrofe. O mecanismo já existia em lei, mas não operava por causa de exigências de aporte que limitavam a participação da União como cotista. Com a sanção, passam a existir novas opções de fontes de recursos

Mapa reconhece oficialmente a raça bovina Bravon

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) reconheceu oficialmente a raça bovina Bravon e autorizou a Associação Nacional de Criadores HerdBook Collares (ANC) a realizar os trabalhos de registro genealógico desses animais no Brasil. A medida foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) por meio da Portaria nº 1.691. A entrega do certificado de reconhecimento oficial da raça à ANC ocorreu em cerimônia realizada na sexta-feira (25), com a participação do secretário-executivo do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Cleber Soares. Segundo o Mapa, a mesma norma que formalizou o reconhecimento da raça também autorizou a entidade a conduzir o registro genealógico dos bovinos

Boi gordo ultrapassa R$ 360 em SP e sobe de forma consistente em outras praças

O mercado físico do boi gordo manteve trajetória de valorização nesta terça-feira (29), com novos reajustes registrados em importantes regiões produtoras. Segundo o analista da consultoria Safras & Mercado Fernado Henrique Iglesias, as escalas de abate permanecem concentradas entre seis e sete dias úteis, mantendo o viés de alta no curto prazo. “A pressão continua mais evidente entre frigoríficos de pequeno e médio porte, que enfrentam maior dificuldade para completar suas programações. As grandes indústrias ainda operam em situação mais confortável, apoiadas por animais provenientes de contratos de parceria e pela utilização de confinamentos próprios”, salienta. De acordo com ele, mesmo após os avanços recentes

Entidades defendem sanção integral de projeto para reforçar o Seguro Rural

A Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e a Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi) defenderam nesta terça-feira (29) a sanção integral do Projeto de Lei 2.951/2024. Segundo as entidades, a medida é necessária para dar previsibilidade ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e fortalecer a gestão de riscos climáticos no agronegócio. O texto aguarda análise do Poder Executivo após aprovação pelo Congresso Nacional. O posicionamento foi apresentado no documento “Um plano para o futuro do agronegócio brasileiro: financiamento, gestão de risco e resiliência climática”, elaborado pelas três entidades. De acordo com