Passada a eleição, Lula precisa conduzir uma transição dentro do próprio governo. A passagem do terceiro para o quarto mandato exige uma revisão da política econômica. A continuidade do presidente não pode significar adiar, por mais quatro anos, o enfrentamento dos problemas que limitam o crescimento do Brasil.
Na minha avaliação, essa deveria ser a prioridade deste período: apresentar um plano que dê sustentação às promessas sociais feitas na campanha. Para continuar atendendo quem precisa do Estado, o governo terá de explicar como vai financiar seus compromissos e abrir espaço para o país investir.
Esse plano precisa nascer de um entendimento com o Congresso Nacional. As eleições ampliaram a presença da direita no Legislativo que assumirá em 2027.
Lula terá de reconhecer essa composição e negociar uma agenda econômica que também incorpore prioridades dessas bancadas, como eficiência do Estado, controle das despesas e estímulo à iniciativa privada. [6]
Defendo um pacto público, formalizado entre o Executivo e as lideranças dispostas a sustentá-lo, com medidas, prazos e compromissos de votação. Cada mudança terá de passar pela aprovação legislativa correspondente. O objetivo é dar ao programa uma base política que permita executá-lo e cobrar seus resultados.
O anúncio precisa ganhar conteúdo
Nos dias 26 e 27 de outubro, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou a intenção de alterar as regras para permitir maior contingenciamento do Orçamento e perseguir formalmente o centro da meta fiscal. A mudança depende do Congresso, e o ministro manifestou a intenção de encaminhá-la ainda em 2026.
É preciso explicar isso de maneira simples. A meta fiscal trata do resultado das receitas e despesas públicas antes do pagamento dos juros da dívida.
Para 2026, o objetivo é um superávit de 0,25% do Produto Interno Bruto, com tolerância de 0,25 ponto percentual para cada lado. Assim, o resultado zero fica no limite inferior da faixa. Buscar o centro significa perseguir uma sobra maior de recursos.
Essa meta convive com o limite de crescimento das despesas previsto no arcabouço fiscal. São mecanismos diferentes. Contingenciar significa restringir a execução de despesas para adequar o Orçamento à meta; isso, por si só, não muda as regras que fazem determinados gastos crescerem ao longo dos anos.
A iniciativa merece atenção. Mas o anúncio precisa se transformar em uma proposta que permita avaliar o tamanho do ajuste e sua duração.
Durigan também mencionou rever emendas parlamentares, supersalários e aposentadorias especiais. Portanto, seria incorreto dizer que ele não apontou nenhum problema estrutural. A cobrança é outra: faltam medidas detalhadas, estimativas de economia e um calendário de execução.
O custo chega a quem produz
O quadro econômico recomenda urgência. O IPCA acumulado em 12 meses chegou a 4,58% em setembro, acima da meta de 3% e ligeiramente superior ao limite de tolerância de 4,5%. Inflação persistente reduz o poder de compra e atinge com mais força as famílias que comprometem quase toda a renda com despesas essenciais.
Também precisamos ter cuidado ao interpretar as expectativas. A pesquisa Focus com dados de 23 de outubro, anteriores ao segundo turno, ainda apontava redução da Selic, com projeções de 13,25% no fim de 2026 e 11,75% no fim de 2027.
Não cabe afirmar que o mercado deixou de esperar cortes. O problema é que mesmo essa trajetória mantém o financiamento caro.
Quando há dúvida sobre a capacidade do governo de organizar suas contas, aumenta o risco de emprestar por prazos longos. Isso pode encarecer o crédito e dificultar o combate à inflação. O desequilíbrio fiscal não explica sozinho os juros brasileiros, mas torna sua redução mais difícil.
No campo, essa dificuldade aparece no financiamento da safra, na compra de máquinas e na decisão de ampliar a produção. Nas cidades, chega ao capital de giro, ao investimento e ao emprego. O custo da incerteza acaba distribuído pela economia.
A confiança pode antecipar resultados
Um acordo crível pode começar a produzir efeitos antes da execução integral das medidas. Os juros futuros incorporam expectativas: se os investidores enxergarem um programa viável, com apoio parlamentar e capacidade de estabilizar a dívida, poderão exigir remuneração menor para financiar o país.
Essa reação pode antecipar parte dos benefícios, embora dependa também da inflação e do cenário externo.
É nesse ambiente que a ideia da “mão invisível”, associada a Adam Smith, ajuda a entender a decisão de investir. Quando os incentivos melhoram e as regras ganham previsibilidade, a busca privada por retorno pode ampliar a produção e o emprego. O anúncio precisa convencer; a execução terá de confirmar essa confiança.
Um plano para sustentar o social
A transição econômica precisa apresentar uma trajetória de vários anos para as despesas e a dívida pública. Uma reforma administrativa deve buscar serviços melhores e eficiência no uso dos recursos. Também é necessário discutir a revisão de indexações que fazem despesas crescerem automaticamente, com respeito aos direitos e regras de transição.
Os subsídios e benefícios tributários precisam passar por uma avaliação rigorosa. Aqueles que não entregam resultados devem ser revistos. Parte da economia permanente obtida poderia financiar uma redução sustentável dos encargos sobre a folha, sobretudo onde o custo de contratar dificulta a criação de empregos formais.
Facilitar a passagem da informalidade para a formalidade amplia a proteção do trabalhador e pode fortalecer a base de contribuintes da Previdência.
Essa mudança precisa ser bem calculada: a perda inicial de arrecadação deve ter financiamento definido, e novas contratações não podem ser tratadas como receita garantida. A formalização ajuda, mas não resolve sozinha o desequilíbrio previdenciário.
O governo também deve mostrar como preservar o investimento e melhorar o ambiente para quem produz. Um ajuste concentrado em obras paralisadas e serviços deteriorados pode melhorar temporariamente um número e comprometer o crescimento que ajudaria a equilibrar as contas.
O campo precisa de orçamento
No agronegócio, isso exige uma escolha orçamentária concreta. O Ministério da Agricultura precisa de recursos suficientes e previsíveis para executar as políticas agrícolas, especialmente o seguro rural e o apoio à armazenagem. O governo terá de abrir espaço para essas prioridades dentro do ajuste.
Há diferença entre manter um benefício sem resultado e apoiar instrumentos que protegem a produção. O seguro ajuda o produtor a enfrentar perdas climáticas; a armazenagem reduz a pressão para vender na colheita e melhora as condições de comercialização. Esses programas também devem ter metas e avaliação, com recursos dimensionados à demanda que se pretende atender.
O compromisso social precisa de financiamento duradouro. A inflação corrói o benefício recebido; o crédito caro limita a geração de renda; o crescimento fraco restringe a arrecadação que sustenta os serviços públicos.
É por isso que defendo uma transição econômica do Lula 3 para o Lula 4 apoiada em um compromisso público com o Congresso. Antes da posse, o presidente deveria apresentar as mudanças que pretende fazer, quanto espera economizar e quais forças políticas vão sustentá-las.
Quem renovou suas promessas nas urnas precisa agora construir as condições para cumpri-las.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.
















