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Boi gordo: Fim precoce da cota chinesa inaugura um dos momentos mais delicados do mercado

Boi gordo: Fim precoce da cota chinesa inaugura um dos momentos mais delicados do mercado


Foto: Secretaria de Agricultura de São Paulo

O mercado físico do boi gordo atravessa um momento de forte pressão baixista, em um movimento que vai muito além da simples negociação entre frigoríficos e pecuaristas. O fator determinante da atual conjuntura é a perspectiva de esgotamento precoce da cota chinesa de importação de carne bovina, evento que modifica significativamente a dinâmica de formação de preços no Brasil.

Nos últimos dias, tornou-se evidente uma atuação coordenada da indústria frigorífica. Mesmo sem contar, em muitos casos, com escalas de abate confortáveis, os frigoríficos passaram a testar preços menores para a arroba, antecipando um cenário de redução das exportações para a China. Trata-se de um movimento preventivo, em que a indústria busca adequar seus custos à nova realidade do mercado internacional.

A importância da China para a pecuária brasileira explica a intensidade dessa reação. O país responde por aproximadamente metade das exportações nacionais de carne bovina, tornando praticamente impossível compensar sua ausência apenas com o crescimento das vendas para outros destinos.

Embora os Estados Unidos venham ampliando suas compras ao longo de 2026 e representem uma importante alternativa comercial, esse mercado, isoladamente, não possui capacidade para absorver o volume tradicionalmente destinado aos chineses.

Esse episódio reforça uma discussão antiga dentro do setor: a necessidade de diversificação dos mercados compradores. Há anos o Brasil negocia a abertura sanitária para Japão e Coreia do Sul, dois mercados reconhecidos pelo elevado valor agregado de suas importações e pelo rigor sanitário exigido de seus fornecedores. Além do ganho financeiro proporcionado por esses destinos, sua abertura representaria um importante reconhecimento internacional da qualidade da carne brasileira.

Os benefícios dessa estratégia vão além da bovinocultura. A suinocultura nacional também seria favorecida, especialmente estados como Paraná e Rio Grande do Sul, que ainda encontram restrições para acessar o mercado japonês. Entretanto, é importante compreender que diversificação de mercados não produz resultados imediatos. Trata-se de um processo diplomático e sanitário complexo, cujos efeitos normalmente são percebidos apenas no médio e longo prazo.

Enquanto isso, a dependência da China continuará sendo uma característica estrutural da pecuária brasileira. A medida de salvaguarda permanecerá vigente também em 2027 e 2028, o que significa que episódios semelhantes poderão voltar a ocorrer caso não haja evolução nas negociações comerciais.

No mercado doméstico, os fundamentos também inspiram cautela. O consumo apresentou desempenho discreto durante a segunda quinzena de junho e no início de julho, limitando qualquer tentativa de reação consistente dos preços no atacado.

Ainda existe expectativa de melhora pontual da demanda em razão da entrada dos salários na economia e da realização da partida da Seleção Brasileira no próximo fim de semana, fatores tradicionalmente associados ao aumento do consumo de proteínas. Contudo, esses estímulos possuem caráter temporário e dificilmente alterarão a tendência predominante do mercado.

Do lado da indústria, as respostas ao novo ambiente de negócios já começaram a aparecer. Diversos frigoríficos anunciaram férias coletivas e reduziram o ritmo de abates, aumentando deliberadamente sua ociosidade operacional. Essa estratégia busca ajustar a produção à menor disponibilidade de demanda externa, reduzindo a necessidade de aquisição de animais terminados. Como consequência, a pressão sobre os preços da arroba tende a permanecer intensa durante as próximas semanas.

O comportamento da B3 reforça essa percepção. O mercado futuro já precificava um terceiro trimestre significativamente mais desafiador para a pecuária brasileira, refletindo as incertezas relacionadas à salvaguarda chinesa. A forte desvalorização dos contratos demonstra que investidores e agentes da cadeia passaram a incorporar um cenário de menor capacidade de exportação e maior dificuldade para sustentação dos preços internos.

As tentativas de flexibilização da medida por parte dos governos brasileiro e australiano, ao menos até o momento, não produziram resultados concretos. A sinalização das autoridades chinesas permanece inalterada, mantendo integralmente as regras da salvaguarda.

Paralelamente, países que ainda possuem ampla disponibilidade dentro de suas cotas, como Argentina, Uruguai, Nova Zelândia e Estados Unidos, tendem a intensificar suas vendas para o mercado chinês. Ao mesmo tempo, cresce a probabilidade de operações trianguladas, tanto por meio de países sul-americanos quanto utilizando Hong Kong como plataforma tradicional de redistribuição de produtos destinados à China.

Embora essas operações possam reduzir parcialmente os impactos comerciais, elas dificilmente compensarão integralmente a perda de competitividade do produto brasileiro durante o período de vigência da cota.

Esse conjunto de fatores reforça uma mudança importante no perfil da gestão pecuária brasileira. Em um ambiente marcado por elevada volatilidade, maior interferência geopolítica e rápidas alterações nas condições de acesso aos mercados internacionais, a gestão de risco deixa de ser uma ferramenta acessória para se tornar um elemento central da atividade.

A utilização de instrumentos como hedge, contratos a termo e estratégias de comercialização escalonada passa a representar uma necessidade econômica, e não apenas uma opção operacional.

O mercado pecuário brasileiro inicia um novo ciclo em que eficiência produtiva, diversificação comercial e gestão financeira caminham lado a lado. Em um cenário cada vez mais complexo, a competitividade dependerá não apenas da capacidade de produzir, mas principalmente da capacidade de administrar riscos e antecipar mudanças estruturais do mercado.

*Fernando Henrique Iglesias é coordenador do departamento de Análise de Safras & Mercado, com especialidade no setor de carnes (boi, frango e suíno)


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