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Dólar em queda: alívio para a inflação, pressão para exportadores

Dólar em queda: alívio para a inflação, pressão para exportadores


Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

A recente valorização do real frente ao dólar reacende um debate clássico da economia brasileira: afinal, um dólar mais baixo é bom ou ruim para o país?

A resposta, como quase tudo em economia, depende do ponto de observação. De um lado, a queda da moeda norte-americana representa um alívio importante para diversos segmentos da economia.

O Brasil possui elevada dependência de produtos, insumos e componentes importados. Combustíveis, fertilizantes, defensivos agrícolas, medicamentos, equipamentos eletrônicos, peças industriais e uma ampla gama de bens de consumo têm seus preços direta ou indiretamente influenciados pelo dólar.

Quando a moeda americana recua, o custo dessas importações tende a cair.

Isso reduz pressões inflacionárias, ajuda no controle de preços internos e melhora o poder de compra da população.

Também abre espaço para uma atuação mais confortável da política monetária, já que uma inflação mais comportada pode favorecer, no médio prazo, a redução da taxa básica de juros.

Para o consumidor, os efeitos podem aparecer na forma de produtos mais baratos, menor pressão sobre combustíveis e custos industriais reduzidos.

Há também um impacto direto sobre o turismo internacional.

Com o dólar mais barato, viagens ao exterior se tornam mais acessíveis para os brasileiros. Destinos tradicionalmente dolarizados, como os Estados Unidos, passam a exigir menos esforço financeiro.

Como se diz popularmente, com o dólar mais baixo, a Disney fica um pouco mais perto do Brasil.

Passagens, hospedagens, alimentação e compras feitas fora do país tendem a pesar menos no orçamento, ampliando o poder de consumo das famílias que planejam viajar.

Mas há o outro lado da balança.

Para o setor exportador, especialmente o agronegócio, mineração e indústria de base, a valorização do real reduz a chamada paridade de exportação.

Na prática, isso significa que cada dólar obtido nas vendas externas se converte em menos reais.

E como grande parte dos custos de produção está internalizada em moeda local — salários, logística, energia, tributos e serviços — a margem operacional tende a ficar mais apertada.

Esse cenário se torna ainda mais delicado quando combinado com juros elevados, crédito restrito e custos financeiros pressionados.

No agronegócio, por exemplo, a equação é bastante sensível.

O produtor muitas vezes enfrenta custos elevados de financiamento, aumento de despesas operacionais e volatilidade internacional de preços.

Se, ao mesmo tempo, o dólar recua, a receita em reais diminui, comprimindo a rentabilidade.

É justamente aí que aparece o paradoxo cambial brasileiro.

O mesmo dólar mais baixo que ajuda a conter a inflação, favorece o consumo interno e estimula viagens internacionais pode retirar competitividade de setores fortemente exportadores, afetando investimentos, geração de renda e expansão produtiva.

Por isso, o desafio não está em defender simplesmente um dólar alto ou baixo, mas em buscar estabilidade cambial.

Oscilações abruptas, para qualquer direção, dificultam planejamento, travam decisões de investimento e aumentam a incerteza econômica.

No fim das contas, o câmbio ideal é aquele que permite equilíbrio: suficientemente competitivo para sustentar exportações e, ao mesmo tempo, suficientemente estável para evitar pressões inflacionárias e preservar o ambiente de negócios.

No câmbio, como em quase tudo na economia, não existe almoço grátis: quando um lado comemora, outro inevitavelmente faz as contas.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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