A proximidade do esgotamento da cota de exportação de carne bovina para a China já começa a mudar a estratégia dos frigoríficos brasileiros. Segundo Raul Bertho, head de gestão de risco da Agrifatto, grandes empresas já reduziram o volume destinado ao mercado chinês e iniciaram o redirecionamento da produção para o mercado interno e para outros países compradores.
Em entrevista ao Mercado & Cia, Bertho afirmou que o movimento é uma consequência natural do avanço da utilização da cota de exportação estabelecida pela salvaguarda chinesa.
“Alguns frigoríficos já têm adotado essa postura de começar a diminuir um pouco a carne destinada para o país asiático”, afirmou.
Cota já se aproxima de 80%
De acordo com o especialista, dados oficiais divulgados no fim de semana mostram que o Brasil já utilizou 65,4% da cota de exportação destinada à China. Considerando as cerca de 140 mil toneladas que ainda estão em trânsito para o país asiático, o preenchimento chega a aproximadamente 78%.
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Com a proximidade do limite, a tendência é que os embarques para a China sejam desacelerados nos próximos meses.
“A China representa cerca de 50% de todo o volume exportado de carne bovina pelo Brasil. Quando diminuímos esse fluxo, começamos a ter um redirecionamento dessa carne para o mercado interno”, explicou.
Segundo Bertho, parte dessa oferta adicional deverá ser absorvida pelos consumidores brasileiros, enquanto outra parcela será destinada a novos mercados internacionais.
Grandes frigoríficos têm mais alternativas
Na avaliação do head de gestão de risco da Agrifatto, toda a cadeia da carne bovina será impactada pela redução das exportações para a China. No entanto, os efeitos tendem a ser diferentes entre grandes e pequenas indústrias.
“Todo frigorífico que exporta para um mercado desse tamanho vai sentir os impactos. A diferença é que os frigoríficos grandes têm outras habilitações, têm outras cartas na manga. Já os menores, muitas vezes, terão como principal alternativa redirecionar essa carne para o mercado interno”, disse.
Diversificação deixa de ser opção
Para Bertho, a necessidade de ampliar a presença da carne brasileira em outros mercados deixou de ser apenas uma estratégia comercial e passou a ser uma necessidade.
“Esse redirecionamento não é nem uma opção. Ele vai ser algo mandatório a partir de agora”, afirmou.
Segundo ele, o Brasil reúne condições favoráveis para ampliar sua atuação internacional por ser um dos maiores produtores e exportadores mundiais de carne bovina.
“O Brasil tem carne à pronta disposição, a um preço acessível, para atender qualquer outro país demandante”, destacou.
Austrália serve de exemplo
Bertho compara a situação brasileira com o que ocorreu recentemente na Austrália, que também esgotou sua cota de exportação para a China.
Segundo ele, após a redução dos embarques ao mercado chinês, outros países passaram a absorver parte da produção australiana.
“O que aconteceu foi que Coreia do Sul, Estados Unidos e Japão aumentaram as importações de carne australiana. Essa arbitragem tende a acontecer também com o Brasil, que possui habilitação para atender esses mercados”, explicou.
Na avaliação do especialista, esse processo não ocorre de forma imediata, mas deve ganhar força à medida que frigoríficos busquem alternativas para compensar a menor participação das vendas destinadas à China.
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