A eleição presidencial caminha para um terreno conhecido, mas ainda mais perigoso: o eleitor poderá escolher não o candidato em quem mais confia, mas aquele que considera menos arriscado.
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O dado mais recente do Datafolha resume esse ambiente. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem com a mesma rejeição: 47% dos entrevistados dizem que não votariam de maneira alguma em cada um deles.
É um empate impressionante. Mas que pode enganar. Os números são iguais. As razões da rejeição, não.
A ciência política chama esse comportamento de partidarismo negativo. O eleitor pode não admirar profundamente um candidato, mas sabe com clareza quem deseja derrotar. É o voto construído pelo medo, pela raiva ou pela desconfiança.
No Brasil, o antipetismo e o anti bolsonarismo tornaram-se identidades políticas. Há pessoas que não se consideram de direita, mas votam contra o PT. Outras não são propriamente de esquerda, mas escolhem Lula para impedir a volta da família Bolsonaro ao poder.
Isso ajuda a explicar um aparente paradoxo. Levantamento do Datafolha mostrou que parte dos eleitores de Lula está situada na direita ou na centro-direita. Da mesma forma, existem eleitores de Flávio classificados na esquerda ou na centro-esquerda.
O eleitor real não cabe perfeitamente nas divisões ideológicas. Seu voto também passa pela renda, pela religião, pela segurança, pela família, pelo emprego e pelas experiências acumuladas ao longo da vida.
Lula carrega o passado
A rejeição a Lula tem um forte componente retrospectivo. Para uma parcela da sociedade, seu nome continua ligado aos escândalos de corrupção ocorridos durante os governos do PT. Existe também o desgaste de um partido que ocupa o centro da política brasileira há décadas e a sensação de que o país continua preso aos mesmos personagens.
Lula ainda enfrenta o julgamento cotidiano do governo. O eleitor avalia o preço dos alimentos, o emprego, a renda, a segurança e a qualidade dos serviços públicos.
Pouco importa, nesse caso, se alguns indicadores econômicos apresentam melhora. Se o dinheiro termina antes do fim do mês, é essa experiência concreta que orienta o voto.
Mas Lula também conserva uma memória social poderosa. Para milhões de brasileiros, ele representa aumento do salário mínimo, programas sociais, acesso ao consumo e melhoria de vida.
Sua força eleitoral nasce dessa lembrança. Sua rejeição também.
Flávio carrega o sobrenome
Flávio Bolsonaro enfrenta um desafio diferente.
Ele não se apresenta apenas como indivíduo. Apresenta-se como herdeiro de uma identidade política construída pelo pai.
O sobrenome Bolsonaro transfere votos, desperta fidelidade e mobiliza o eleitor conservador. Mas também transfere rejeição, conflitos e desconfianças.
Uma parcela de seus apoiadores provavelmente não vota em Flávio por entusiasmo com sua trajetória. Vota no bolsonarismo, na segurança pública, nos valores conservadores e, principalmente, contra o PT.
Flávio tenta transformar a fidelidade ao pai em confiança pessoal. Essa passagem, porém, não é automática.
Lula é o fundador e o principal símbolo de seu campo político. Flávio ainda precisa convencer a sociedade de que possui autoridade própria e um projeto que ultrapasse a defesa da família.
Seu discurso contra o Supremo, a defesa da anistia e a promessa de libertar o pai fortalecem sua ligação com o núcleo mais fiel do bolsonarismo. Ao mesmo tempo, aumentam a preocupação do eleitor moderado com a possibilidade de novos conflitos institucionais.
O que mobiliza sua base pode afastar justamente quem decidirá a eleição.
Quando o adversário vira inimigo
Em uma democracia saudável, o outro lado é um adversário. Pode estar errado, pode ser derrotado, mas continua fazendo parte do jogo político.
Na polarização extrema, essa lógica muda.
O adversário passa a ser tratado como inimigo. De um lado, afirma-se que a volta do bolsonarismo colocaria a democracia em risco. Do outro, sustenta-se que mais um governo do PT ameaça a economia, a liberdade e os valores da sociedade.
A campanha deixa de perguntar qual candidato possui o melhor projeto para o país.
A pergunta passa a ser outra:
Qual deles representa o perigo menor?
As redes sociais aprofundam esse comportamento. Medo, indignação e raiva circulam com mais velocidade do que explicações equilibradas. O eleitor passa a consumir informações que confirmam suas crenças e rejeita, quase automaticamente, tudo o que venha do campo adversário.
Nesse ambiente, o fato perde espaço para a identidade. Antes de avaliar a notícia, a pessoa procura saber quem a divulgou e a quem ela favorece.
O eleitor que pode mudar
Existe, entretanto, uma parcela da sociedade que não está presa aos dois campos.
Um recorte da pesquisa BTG/Nexus aponta que aproximadamente 19% dos brasileiros não estão ligados nem a Lula nem a Flávio. Dentro desse universo, um estudo qualitativo estima que o eleitor verdadeiramente pendular — aquele capaz de escolher qualquer um dos dois — represente algo próximo de 5% do eleitorado. É um grupo pequeno, mas decisivo.
Esse eleitor tende a ser pragmático. Está preocupado com saúde, segurança, emprego, renda e custo de vida. Não possui grande fidelidade partidária e reage com mais intensidade ao noticiário.
Uma denúncia, uma frase radical, uma crise econômica ou um confronto institucional pode alterar sua decisão.
Quando explica o próprio voto, esse eleitor costuma falar mais dos defeitos do adversário do que das virtudes de seu candidato.
Ele não diz apenas “vou votar em Lula” ou “vou votar em Flávio”. Diz, com frequência: “vou votar nele porque não posso deixar o outro ganhar”.
Rejeições iguais, medos diferentes
Lula será favorecido se conseguir transformar a eleição numa escolha entre proteção social e risco de retorno do bolsonarismo. Será prejudicado se o debate for dominado pela corrupção, pelo desgaste do governo e pela insatisfação econômica.
Flávio será favorecido se representar mudança, segurança e reação ao PT. Perderá espaço se a campanha ficar concentrada na situação do pai, na radicalização e no risco de novas crises entre os Poderes.
A eleição está praticamente empatada. Por isso, não basta mobilizar os que amam cada candidato. Será necessário conquistar aqueles que desconfiam dos dois.
Esse eleitor não procura um salvador. Procura segurança.
No final, o próximo presidente talvez não seja escolhido pelo entusiasmo que desperta, mas pelo medo que consegue reduzir.
Em 2026, o voto poderá deixar de ser uma declaração de confiança para se transformar em um instrumento de contenção. O brasileiro não escolherá necessariamente quem mais deseja ver no poder. Escolherá quem considera necessário eleger para impedir o outro.

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural
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