USD: R$ -- EUR: R$ -- BTC: R$ -- USD: R$ -- EUR: R$ -- BTC: R$ --
Navegando:
Restrições da UE à carne bovina fazem Brasil acelerar rastreabilidade; ‘é um caminho sem volta’, diz especialista

Restrições da UE à carne bovina fazem Brasil acelerar rastreabilidade; ‘é um caminho sem volta’, diz especialista


Sistema de rastreabilidade cruza informações ambientais e sanitárias para garantir a legalidade na cadeia da carne bovina (Foto: Reprodução).

A partir desta quarta-feira (1º), entra em vigor uma nova etapa da estratégia do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para atender às exigências da União Europeia sobre o uso de antimicrobianos na produção animal. A medida prevê um sistema de certificação e rastreabilidade para bovinos livres desses medicamentos, em uma tentativa de preservar o acesso do Brasil ao mercado europeu diante das novas regras impostas pelo bloco.

A iniciativa ocorre em um momento de pressão crescente sobre a pecuária brasileira. Em setembro, passa a valer a regulamentação europeia que restringe a importação de carnes de países que utilizam determinados antimicrobianos ao longo da vida dos animais. O Brasil tentou negociar um período de transição e alternativas para adaptação, mas os pedidos foram rejeitados pela União Europeia.

Mais do que uma discussão sobre medicamentos, o impasse expõe um tema que há anos ganha espaço na agenda do agronegócio: a rastreabilidade individual dos animais.

Para a gerente executiva da Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável , Michelle Borges, esse processo deixou de ser uma tendência e passou a ser uma necessidade para quem pretende permanecer competitivo.

“O produtor tem que entender que a rastreabilidade é um caminho sem volta. E ele precisa entender que isso é um benefício para ele.”

Entenda o impasse com a União Europeia

A nova legislação europeia começou a ser desenhada em 2019, quando o bloco anunciou a intenção de restringir o uso de antimicrobianos na produção animal. A regulamentação foi formalizada em 2023, estabelecendo prazo para que os países exportadores se adequassem até 3 de setembro de 2026.

No caso da carne bovina, o desafio é maior porque a União Europeia exige o histórico completo do animal, desde o nascimento até o abate.

No Brasil, isso significa acompanhar bovinos que passam por diferentes propriedades durante um ciclo produtivo que pode durar entre dois e três anos. Muitos animais nascem em fazendas de cria, seguem para propriedades de recria e terminam o ciclo em confinamentos ou fazendas de engorda. Registrar todo esse percurso é justamente um dos maiores gargalos da rastreabilidade nacional.

Além disso, a lista europeia de substâncias proibidas inclui não apenas antibióticos utilizados na medicina humana, mas também ionóforos — aditivos amplamente empregados na alimentação do gado de corte para melhorar a conversão alimentar e o ganho de peso. A União Europeia recusou a proposta brasileira de restringir o uso apenas na fase final da engorda, mantendo a exigência de controle documental durante toda a vida do animal.

O que faz a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável

Criada para reunir diferentes elos da cadeia da carne bovina, a Mesa Brasileira da Pecuária Sustentável reúne produtores rurais, frigoríficos, varejo, restaurantes, instituições financeiras, organizações da sociedade civil, pesquisadores e representantes do poder público.

O objetivo é construir soluções conjuntas para tornar a pecuária mais sustentável, conciliando produtividade, conservação ambiental, inclusão social e acesso aos mercados.

Segundo Michelle Borges, uma das principais bandeiras da entidade é justamente acelerar a implantação da rastreabilidade individual no país.

A organização, inclusive, apresentou ao Ministério da Agricultura uma proposta de política pública sobre o tema e participa do comitê estratégico responsável pela implementação do Programa Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, que prevê a obrigatoriedade gradual da rastreabilidade até 2032.

Mais do que exportação

Embora a discussão tenha ganhado força por causa das exigências europeias, Michelle afirma que limitar a rastreabilidade às exportações é um erro.

Segundo ela, o mercado brasileiro também caminha para exigir cada vez mais transparência.

“O produtor muitas vezes pensa que não precisa cumprir determinadas exigências porque vende apenas para o mercado nacional. Mas, se ele não adotar essas práticas, também corre o risco de perder espaço dentro do mercado interno.”

Ela destaca que a rastreabilidade não serve apenas para comprovar a origem da carne.

A ferramenta permite monitorar questões sanitárias, ambientais e sociais, identificar rapidamente focos de doenças, fortalecer programas de segurança alimentar e demonstrar o cumprimento da legislação ambiental e trabalhista.

“A rastreabilidade, em um primeiro momento, é para fins sanitários. Mas ela também dá origem, transparência e permite monitorar questões ambientais, regulatórias e socioambientais.”

Resistência ainda existe

Apesar do avanço da discussão, Michelle reconhece que ainda há resistência entre produtores, principalmente pequenos e médios.

Na avaliação dela, parte dessa resistência decorre da falta de informação.

“Passaram uma informação equivocada para eles. Muitos acreditam que todos terão acesso aos dados da propriedade, mas isso não é verdade. Existe a Lei Geral de Proteção de Dados. As informações pertencem ao produtor.”

Ela lembra que parte do controle já existe atualmente por meio da Guia de Trânsito Animal (GTA) e dos protocolos exigidos pelos frigoríficos.

A diferença é que a rastreabilidade individual amplia a capacidade de acompanhar todo o histórico do animal e gera informações que podem ser utilizadas para melhorar a gestão da propriedade.

“A rastreabilidade é uma excelente ferramenta de gestão. O produtor passa a ter dados para melhorar a eficiência da produção e controlar melhor sua propriedade.”

Pequenos produtores são o maior desafio

Para Michelle, o sucesso do sistema depende principalmente da inclusão dos pequenos e médios pecuaristas, responsáveis por uma parcela significativa do rebanho nacional.

Segundo ela, não basta criar regras sem oferecer condições para que esses produtores façam a transição.

“Não adianta fazer rastreabilidade apenas no grande produtor. Os pequenos e médios precisam de informação, assistência técnica e condições para fazer essa transição.”

Ela defende que o processo pode começar de forma simples.

“Não precisa esperar tecnologia sofisticada. O produtor pode começar registrando informações em um caderno ou em uma planilha, anotando a origem dos animais e para quem eles são vendidos. O importante é começar.”

Transparência abre mercados

Michelle também rebate a percepção de que a rastreabilidade representa apenas mais uma obrigação para o produtor.

Segundo ela, além de aumentar a eficiência da fazenda, o sistema cria oportunidades de acesso a mercados mais exigentes, protocolos de certificação, programas ambientais, pagamentos por serviços ambientais e até créditos de carbono.

“O produtor precisa olhar para a rastreabilidade como uma oportunidade, e não como um problema.”

Ela acrescenta que o Brasil já possui um dos marcos regulatórios ambientais mais rigorosos do mundo, mas ainda enfrenta dificuldades para demonstrar isso de forma organizada.

“Nós sabemos o que fazemos, mas muitas vezes não conseguimos comprovar. Precisamos padronizar os dados e conectar as bases de informação para mostrar ao mercado tudo o que o Brasil já faz.”

Antecipar para não perder mercado

Embora o cronograma nacional preveja a obrigatoriedade da rastreabilidade individual até 2032, Michelle defende que o setor acelere essa implantação.

Na avaliação dela, esperar que novas exigências sejam impostas pelos compradores internacionais pode custar competitividade ao país.

“A gente não pode esperar que o mercado dite as regras para só depois agir. Precisamos nos antecipar.”

O post Restrições da UE à carne bovina fazem Brasil acelerar rastreabilidade; ‘é um caminho sem volta’, diz especialista apareceu primeiro em Canal Rural.



Source link

Assine nossa Newsletter

Sinta-se no campo com as notícias mais atualizadas sobre o universo do agronegócio.

Sem spam, você pode cancelar a qualquer momento.


Notícias Relacionadas

Nelore pintado: o que avaliar antes de comprar um reprodutor?

Foto: Reprodução. O crescente interesse pela genética do nelore pintado vai muito além da beleza de sua pelagem. Seja na cor preta ou vermelha, o gado mantém características de resiliência e adaptabilidade do nelore padrão, que vive um momento importante de valorização, principalmente nos segmentos de seleção de animais, participação em exposições e julgamentos de raça. “Temos visto nos últimos anos quebras de recordes, além de uma grande procura e aumento na entrada de investidores, tanto no nelore, nelore mocho, e nelore pintado. O que explica o interesse da raça no geral é a sua eficiência genética, devido ao melhoramento genético que vem ocorrendo”, observa

Foi dada a largada: Lula e Flávio abrem a eleição que pode redesenhar o Brasil

Neste domingo (16), a campanha eleitoral começou oficialmente. A legislação passou a permitir propaganda, comícios, caminhadas e pedidos explícitos de voto. E os dois candidatos que lideram as pesquisas escolheram palcos carregados de simbolismo para dar a largada. Lula voltou ao Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, berço de sua trajetória sindical e política. Flávio Bolsonaro foi à Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, território consagrado pelas grandes manifestações do bolsonarismo. As imagens resumem o ponto de partida da eleição: de um lado, Lula procurando recuperar a memória do sindicalista que chegou à Presidência; do outro, Flávio tentando transformar a herança

Morre Zé Humberto, grande referência da pecuária brasileira

Pecuarista foi pioneiro em manejo, seleção genética e visão produtiva no país (Foto: Reprodução/Memórias do Brasil Rural) A pecuária brasileira se despede de um dos seus nomes mais marcantes e respeitados. Faleceu neste domingo (16) o pecuarista José Humberto Vilela Martins, conhecido nacionalmente pelo apelido e pela trajetória como ‘Zé Humberto’. Ao longo de mais de 60 anos dedicados à lida e à criação de gado de corte, ele construiu um legado de pioneirismo, técnica e paixão pela terra. Zé Humberto também foi imortalizado como um dos grandes personagens do Memórias do Brasil Rural, do Canal Rural, projeto que resgata as trajetórias e memórias de

Abramilho cobra menos ‘amarras’, salto em infraestrutura e Plano Safra plurianual

Foto: Canal Rural Mato Grosso Com a aproximação da corrida eleitoral para o Palácio do Planalto, as principais lideranças do agronegócio intensificam a apresentação de suas pautas prioritárias aos candidatos. Para a Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), o próximo chefe do Executivo terá como teste decisivo a capacidade de destravar a competitividade do setor produtivo e garantir condições para que o campo avance sem entraves burocráticos e estruturais. O presidente da entidade, Paulo Bertolini, pontua que a desregulamentação e o corte de barreiras administrativas devem encabeçar o plano de governo dos presidenciáveis. “Primeiro, tirar as amarras que dificultam o setor produtivo

Por que a fertilidade do solo faz diferença na produção do pasto na seca? Especialista responde

Foto: Reprodução/Giro do Boi. A relação entre a fertilidade do solo e a capacidade de suporte das pastagens durante os meses de escassez hídrica é direta e proporcional. Respondendo à dúvida do produtor Julio Vitorino, de Campo Mourão (PR), durante o quadro “Giro do Boi Responde”, no Giro do Boi, o engenheiro agrônomo Marcius Gracco detalhou a importância do equilíbrio nutricional do solo. O especialista ressaltou que a presença de minerais chave como o fósforo, além do cálcio e do magnésio, é o fator determinante para garantir a sobrevivência e a produtividade do capim no período de estiagem. De acordo com Gracco, em sistemas de

Campanha eleitoral começa neste domingo; veja regras e datas

Foto: Reprodução A campanha eleitoral para as eleições de 2026 começa oficialmente neste domingo (16). A partir de hoje, candidatos podem realizar carreatas, passeatas e distribuir panfletos, além de fazer propaganda na internet e anúncios pagos na imprensa escrita. Segundo a Lei das Eleições e as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a propaganda eleitoral está autorizada até 3 de outubro, véspera do primeiro turno. As carreatas, passeatas e demais atos de campanha podem ocorrer das 8h às 22h. Já os comícios estão permitidos das 8h à meia-noite e poderão ser realizados até 1º de outubro. As mobilizações eleitorais devem respeitar uma distância mínima de

Marcação a fogo gera 18% de erro na identificação de bovinos, aponta estudo

Foto gerada por IA. A marcação a fogo pode gerar até 18% de erro na identificação dos bovinos, comprometendo a gestão do rebanho. O dado foi revelado em estudo realizado na Fazenda Orvalho das Flores, conduzido pela médica-veterinária Janaína Braga, da BE.Animal. O problema está relacionado não apenas à numeração aplicada, mas à qualidade da marca ao longo do tempo. Em entrevista ao Giro do Boi, Janaína destacou que cicatrizes, crescimento de pelos e o desgaste da identificação dificultam a leitura dos números, levando a registros incorretos no manejo. Confira: Impactos na gestão do rebanho Uma taxa de erro de 18% pode impactar diretamente o

Próximo presidente deve ampliar crédito e tecnologia no campo, defende Sistema OCB

Foto: divulgação A principal prioridade do próximo presidente da República para o agronegócio deve ser ampliar a competitividade do setor sem deixar pequenos e médios produtores à margem do desenvolvimento. A avaliação é da presidente-executiva do Sistema OCB, Tania Zanella, que defende políticas voltadas ao acesso à tecnologia, crédito, assistência técnica e mercados. “Na nossa visão, a principal prioridade para o próximo presidente deve ser construir um agronegócio cada vez mais competitivo e inclusivo”, afirma. Receba no seu celular atualizações em tempo real, enquetes interativas e tudo o que impacta o dia a dia no campo: entre agora no Whatsapp do Canal Rural!  Segundo Tania,

Conab participa de oficinas para plano de enfrentamento à estiagem

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) participou das oficinas de capacitação do Plano Nacional de Enfrentamento à Estiagem na Amazônia Legal e no Pantanal (PNEAP), coordenadas pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (Sedec/MIDR). As atividades ocorreram em dez estados brasileiros, entre os dias 3 e 7 de agosto, com a participação de mais de 40 empregados da estatal. As oficinas foram realizadas nos dias 3 e 4 de agosto em Belém (PA), Boa Vista (RR), Campo Grande (MS), Rio Branco (AC) e São Luís (MA). Já nos dias 6 e 7 de agosto, os encontros

MP libera crédito extraordinário para estoques públicos e compra de alimentos

A Medida Provisória (MP) nº 1.384 autorizou a abertura de crédito extraordinário para o enfrentamento dos efeitos do El Niño sobre o abastecimento e a segurança alimentar no Brasil. Publicada no Diário Oficial da União (DOU) na última quarta-feira (12), a norma destina recursos ao Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) e ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), em complemento ao orçamento de políticas executadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Segundo a medida, os recursos voltados à formação de estoques públicos somam mais de R$ 849 milhões. O montante será aplicado na Ação Orçamentária 2130