A busca por uma pecuária mais eficiente passa cada vez mais pelo uso de tecnologias capazes de medir o desempenho individual dos animais. Uma dessas ferramentas permite identificar quais bovinos conseguem ganhar peso consumindo menos alimento, informação estratégica para reduzir custos de produção, orientar programas de melhoramento genético e até diminuir a pegada de carbono da atividade.
O sistema funciona por meio de um cocho equipado com balança e uma antena eletrônica. Cada animal possui um chip de identificação na orelha e, sempre que se aproxima para se alimentar, o equipamento registra sua identidade e mede, em tempo real, a quantidade de alimento consumida.
“É um cocho que, na verdade, fica montado em cima de uma balança. A ideia, é que a gente consiga saber exatamente qual o animal está comendo naquele determinado momento e o quanto que ele está comendo naquela visita que ele fez ao cocho”, explica o pesquisador da Embrapa de Corte, Rodrigo Costa Gomes.
Ao longo de aproximadamente 50 dias, o sistema acompanha todas as visitas dos animais ao cocho, que podem chegar a 20 ou 30 vezes por dia. Com isso, os pesquisadores conseguem calcular o consumo médio individual e comparar o desempenho entre os bovinos.
Principal métrica
A principal métrica obtida pela tecnologia é o chamado Consumo Alimentar Residual (CAR), indicador utilizado para medir a eficiência alimentar dos animais. Em termos práticos, ele mostra quais bovinos conseguem apresentar bom desempenho produtivo utilizando menos alimento do que seria esperado.
Os pesquisadores também analisam características fundamentais para a pecuária, como fertilidade e qualidade de carcaça.
Os touros avaliados, por exemplo, são destinados posteriormente a centrais de inseminação ou propriedades rurais. Por isso, além de eficientes no aproveitamento da dieta, precisam apresentar capacidade reprodutiva e potencial genético para transmitir características desejáveis aos descendentes, como maior rendimento de carne e melhor desenvolvimento muscular.
O que torna um animal mais eficiente?
Segundo Gomes, não existe um único fator responsável pela eficiência alimentar, a característica resulta da combinação de diversos aspectos genéticos e fisiológicos.
Animais com temperamento mais calmo, por exemplo, tendem a gastar menos energia com estresse e movimentação. Outros conseguem digerir e aproveitar melhor os nutrientes presentes na dieta.
Além disso, bovinos mais eficientes normalmente depositam menos gordura corporal. Isso porque a formação de gordura exige maior consumo de energia e alimento. Dessa forma, animais que direcionam melhor os nutrientes para o crescimento muscular costumam apresentar melhor desempenho produtivo.
Importância cresce nos sistemas intensivos
A eficiência alimentar ganha ainda mais relevância com a intensificação da pecuária brasileira. Sistemas como confinamento e terminação intensiva a pasto utilizam dietas mais balanceadas e maior quantidade de alimentos concentrados, que elevam os custos de produção.
Nesse cenário, selecionar animais capazes de transformar melhor o alimento em ganho de peso reduz desperdícios e melhora a rentabilidade da atividade.
Adaptação ao calor
Pesquisas recentes indicam que animais mais eficientes podem apresentar também maior adaptação às condições climáticas.
Estudos em andamento investigam se bovinos com melhor eficiência alimentar suportam melhor o calor e o estresse térmico, característica considerada estratégica diante do avanço das mudanças climáticas e da expansão da pecuária para regiões mais quentes e úmidas do país.
Caso essa relação seja confirmada, o melhoramento genético poderá contribuir simultaneamente para aumentar a produtividade e tornar os rebanhos mais resilientes aos desafios ambientais.
Fase de cria concentra maior impacto ambiental
Os estudos também apontam que o maior desafio para reduzir as emissões da pecuária está na fase de cria.
Segundo os pesquisadores, entre 70% e 80% da pegada de carbono da carne bovina brasileira está concentrada nessa etapa, quando as vacas matrizes permanecem no sistema produzindo os bezerros. Como animais adultos consomem mais alimento, também emitem maior quantidade de metano durante a digestão.
Por isso, estratégias como aumento da fertilidade, melhoria da sanidade dos bezerros, redução da mortalidade e avanço do melhoramento genético podem gerar impactos importantes tanto na produtividade quanto na redução das emissões de gases de efeito estufa.
Para os pesquisadores, identificar e selecionar bovinos mais eficientes representa um dos caminhos para produzir mais carne utilizando menos recursos, aumentando a competitividade da pecuária brasileira e contribuindo para sistemas de produção mais sustentáveis.
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