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Política não deveria interferir na defesa do Brasil contra o tarifaço dos EUA

Política não deveria interferir na defesa do Brasil contra o tarifaço dos EUA


Imagem gerada por IA para o Canal Rural

A audiência promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para discutir a possível aplicação de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros ocorre em um momento de enorme sensibilidade para a economia nacional.

A decisão poderá impactar exportações, investimentos, empregos e a competitividade de empresas que dependem da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos.

Justamente por isso, preocupa quando uma audiência de natureza essencialmente técnica passa a ser utilizada como extensão da disputa política brasileira. Quanto mais o debate se afasta dos fundamentos econômicos e comerciais, menor tende a ser a capacidade de convencer as autoridades americanas de que as justificativas para a adoção das tarifas são frágeis.

O que está em jogo não é uma disputa entre governo e oposição. Está em jogo a defesa dos interesses econômicos brasileiros.

A audiência deveria ser técnica

Independentemente das divergências políticas, uma audiência dessa natureza deveria servir para demonstrar que o Brasil possui argumentos sólidos para contestar os fundamentos apresentados pelos Estados Unidos.

O próprio USTR justificou a abertura da investigação citando temas como PIX, comércio digital, propriedade intelectual, combate à pirataria, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

São questões complexas, que exigem análise técnica, dados e diálogo entre os dois países — e não narrativas eleitorais.

O caso do PIX

Talvez o exemplo mais evidente seja o PIX.

É difícil sustentar que o sistema brasileiro de pagamentos tenha prejudicado empresas americanas do setor financeiro.

Os dados mostram justamente o contrário.

O PIX enfraqueceu as empresas americanas? Os números dizem que não

Indicador Evolução
Transações com cartão de crédito (2020–2025) +125% (R$ 4,5 trilhões)
Cartões ativos no Brasil (2020–2025) 324 milhões → 477 milhões (+47,5%)
Volume movimentado por cartões (2024–2025) +14% (R$ 3 trilhões)
Cartões de crédito ativos (2º semestre de 2025) 253,8 milhões
Crescimento das transações (2º semestre de 2025) +9,4%
Participação dos cartões na economia (1º trimestre de 2026) 35,1% do PIB
Relações ativas no Sistema Financeiro Nacional (2020–2024) 159 milhões → 175 milhões (+10%)

Fonte: Banco Central, Abecs e FecomercioSP.

Os números indicam que a chegada do PIX ampliou a concorrência, reduziu custos e acelerou a inclusão financeira sem eliminar a atuação das grandes bandeiras internacionais.

Ao contrário, Visa e Mastercard continuaram expandindo suas operações no Brasil.

Em vez de substituir os cartões, o PIX fez o mercado de pagamentos crescer. Milhões de brasileiros passaram a utilizar serviços financeiros digitais, abrindo espaço para novos produtos e para o fortalecimento de todo o ecossistema de meios de pagamento.

Em outras palavras, o mercado ficou maior para todos.

Um debate muito maior

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outros pontos levantados pelo USTR.

O combate à pirataria, por exemplo, é um desafio permanente e precisa continuar sendo enfrentado. No entanto, utilizá-lo como justificativa para uma medida comercial dessa magnitude ignora que esse problema também está presente em diversas outras economias.

No campo ambiental, o Brasil ainda convive com o desmatamento ilegal, que deve ser combatido com rigor.

Ao mesmo tempo, o país possui uma das maiores áreas de vegetação nativa preservada do planeta, um Código Florestal reconhecido entre os mais rigorosos do mundo e sistemas de monitoramento por satélite que vêm registrando queda nos índices de desmatamento nos últimos anos.

São temas complexos que dificilmente encontram solução por meio da imposição de tarifas comerciais.

Quando a disputa política atravessa a fronteira

O aspecto mais delicado dessa audiência talvez seja outro.

Quando representantes brasileiros levam para Washington uma narrativa predominantemente voltada ao embate político interno, corre-se o risco de transmitir às autoridades americanas a percepção de que a disputa eleitoral brasileira passou a integrar uma negociação conduzida por outro país.

Isso desloca o foco do verdadeiro objetivo: evitar medidas que prejudiquem empresas brasileiras, trabalhadores, exportadores e cadeias produtivas construídas ao longo de décadas.

O senador Flávio Bolsonaro, por exemplo, passou a defender o adiamento da entrada em vigor das tarifas, argumentando que sua aplicação poderia fortalecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de uma avaliação essencialmente eleitoral.

A prioridade, neste momento, deveria ser demonstrar que a adoção das tarifas carece de fundamentos econômicos sólidos e que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos gera benefícios recíprocos.

Quem realmente paga a conta

Tarifas raramente atingem governos. Seus efeitos recaem sobre empresas, trabalhadores, consumidores e investimentos. Em economias altamente integradas, barreiras comerciais aumentam custos ao longo de toda a cadeia produtiva, reduzem competitividade e pressionam preços em ambos os países.

Embora parte do agronegócio brasileiro possa redirecionar exportações para outros mercados, diversos segmentos da indústria nacional apresentam elevada dependência do mercado americano e podem sofrer perdas importantes caso as medidas sejam confirmadas.

Os próprios consumidores dos Estados Unidos também tendem a ser afetados pelo aumento dos custos de produtos importados.

O interesse nacional deve vir primeiro

Nos próximos dias, o governo americano anunciará sua decisão. Até lá, o interesse nacional deveria ser o único protagonista desse debate.

Divergências políticas são legítimas e fazem parte da democracia. Mas, diante de uma negociação comercial que movimenta bilhões de dólares, influencia investimentos e sustenta milhares de empregos, o Brasil precisa falar com base em dados, argumentos técnicos e visão estratégica.

Quanto mais a disputa eleitoral substitui a argumentação econômica, maiores são as chances de o país perder espaço justamente onde mais precisa demonstrar previsibilidade, credibilidade e capacidade de negociação.

Porque tarifas não distinguem partidos. Elas atingem empresas, trabalhadores, investimentos e a imagem do Brasil perante seus principais parceiros comerciais.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação.

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